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Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator.

Aprender a desaprender

A grande dificuldade que temos não é aprender coisas novas, mas desaprender as velhas


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Uma vez chegou a um circo um novato assistente que ficou admirado ao ver um grande elefante preso somente a uma corda amarrada em uma estaca fincada ao chão. Obviamente o elefante teria força de sobra para se livrar daquilo, se quisesse; assustado, o rapaz perguntou aos mais experientes se eles não tinham medo do animal escapar. Depois de rirem da inocência do rapaz, um experiente domador explicou que isso seria impossível, pois o elefante “aprendeu” que não poderia fugir. Vendo a expressão de dúvida ainda no rosto do jovem, o domador contou que quando o elefante ainda é pequeno, eles o amarram à mesma corda e estaca. O pequeno elefante tenta se soltar com toda sua força, mas não consegue. Depois de grande, o elefante não tenta mais por ter “aprendido” que não consegue, transformando dessa forma, a corda e a estaca em uma prisão perpétua independentemente do seu tamanho.

Esta parábola do elefante é contata para nos falar de força e o quanto desconhecemos nossa capacidade. Porém, se pensarmos por outro ângulo, esta metáfora tem muito a nos ensinar sobre a aprendizagem.

Assim como o elefante da história, muitas vezes aprendemos coisas e não questionamos sobre elas, elas ficam no automático e simplesmente não refletimos sobre aquilo. Em nosso caso, a estaca e corda podem ser elementos mais enraizados e subjetivos, coisas que são ditas desde que somos pequenos e agem como um “adestramento”, decidindo inclusive sobre nossas necessidades e desejos. Este seria um dos pontos negativos da cultura, dos costumes e do senso comum. Explica, por exemplo, os pensamentos machistas, xenofóbicos, homofóbicos e outros de caráter discriminatório.

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O mundo hoje caminha de uma forma acelerada, existe uma pressa que não se sabe de quê e uma pressão que nos cobra que sejamos sempre os melhores em tudo. A ditadura do empreendedorismo. Uma sociedade que joga uns contra os outros e fomenta uma insana competição, causando, assim, uma série de distorções na qual as pessoas confundem lazer com excessos, felicidade com poder e amor com vícios. Se pararmos para observar atentamente, sem ser no modo automático, talvez muitas dessas “necessidades” contemporâneas não passem de valores criados, são verdadeiras estacas em nossa evolução.

Para ter uma dimensão de como esta imersão em uma realidade montada acontece, uma recente pesquisa feita nos EUA questionou diversas pessoas sobre quais os verdadeiros objetivos de suas vidas. 80% delas disseram que tinham por objetivo serem ricas. Entenda por riqueza o acúmulo de dinheiro e bens materiais. Ou seja, a grande maioria das pessoas tem um modelo de sucesso que no qual enriquecer está acima de “ser feliz” ou é visto como sinônimo disto. Essa estaca e corrente fictícias aprisionam e fazem com que nossa vida se torne cada vez mais cheia de angústias e menos satisfatória, desencadeando todo aquele ciclo que conhecemos de pressão, cobranças, metas de sucesso e uma constante frustração até que chegamos a um estado de fadiga. Por isso, vale tentar um ponto de vista diferenciado à forma como interpretamos e significamos a vida, para, dessa forma, perceber que talvez uma leve mudança de perspectiva possa trazer uma experiência mais plena de existir.

Hoje é mais comum algumas pessoas despertarem para essa nova realidade. Provavelmente você já ouviu histórias do cara que era pós-graduado e tinha um ótimo cargo, mas largou tudo para abrir seu negócio de culinária que sempre foi seu sonho. Pessoas que renunciam às normas e vendem tudo para viver com dinheiro contado viajando por aí e diversos outros relatos de pessoas que trocaram o escritório por uma vida mais simples, porém muito mais rica de significados. Essas pessoas, por mais conforto que tivessem, não podiam mais suportar viver uma vida vazia de sentido e que trouxesse infelicidade.

Mas como saber o que é necessário para uma vida completa? Quais caminhos nos levam a experiências saudáveis e frutíferas? Talvez exista uma resposta. Um estudo chamado de Estudo de Desenvolvimento Humano, de Harvard (provavelmente o maior estudo em duração do mundo), analisou por 75 anos a vida de 724 pessoas para identificar o que faz a vida valer a pena. Ele observou escolhas e aplicou periódicos questionários, incluindo para as pessoas que conviviam com os participantes. Este estudo pioneiro ainda está em curso, conduzido pela quarta geração de pesquisadores e com apenas 60 das pessoas iniciais ainda vivas. Porém, hoje ele abrange também os mais de 2 mil filhos destes candidatos e prossegue gerando uma rica fonte de informação.

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Neste estudo, dois grupos foram criados: um formado por pessoas da alta sociedade e outro com pessoas de famílias bastante desfavorecidas. A mensagem central das centenas de páginas que este estudo nos trouxe é somente uma (para ambos os grupos) e bastante simples: “Bons relacionamentos nos mantêm felizes e saudáveis”. Ponto-final. Não é o dinheiro, nem o sucesso na carreira, nem a fama que traz a felicidade, mas sim a valorização das pessoas ao seu redor. O estudo afirma que as conexões sociais são extremamente benéficas à saúde, já a solidão, mata – pessoas solitárias têm qualidade de vida inferior e uma degeneração biológica mais acelerada.

Que “dinheiro não traz felicidade” todo mundo já ouviu, mas o curioso é que as pessoas em geral priorizem o dinheiro sem se importar com o preço desta busca. Sacrificam família, amigos, relações e quando percebe a vida passou sendo construída em cima de valores superficiais. Se compararmos os dados da pesquisa de desenvolvimento humano com o dos objetivos de vida das pessoas, vemos que ser rico é uma unânime maioria. Talvez esta discrepância alerte que o pensamento do sucesso é um conceito implantado, que vai moldando nossas condutas e nos transformando em pessoas mesquinhas e individualistas.

Somos a geração focada no trabalho, o mundo de pessoas bem-sucedidas. Cargos com nomenclaturas gigantescas em inglês no LinkedIn, capital humano doando toda sua energia para coisas que nem sempre acreditam. Porém há um caminho diferente sendo traçado por alguns que indicam uma nova direção. Assim como nossos pais destruíram a visão de nossos avós de que o modelo de vida ideal era a constituição da família perfeita, nós estamos desconstruindo a visão de carreira que nossos pais nos deixou como legado. Nossos pais foram a geração do divórcio, da formação de novos formatos de famílias, e apesar dos trancos e barrancos as coisas estão melhores nesse sentido. Tudo está se transformando, lentamente, mas está. Nossa conduta que forma a engrenagem para mover estas mudanças para maneiras mais significativas de viver.

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Eduardo Marinho é um filósofo de rua que vale muito a pena conhecer e fala exatamente sobre isso. O documentário feito sobre ele, chamado Observar e Absorver, é transformador. O link dele completo estará no final deste texto para apreciação. Eduardo nasceu nas castas privilegiadas da sociedade, com acesso à melhor educação, porém decidiu abrir mão de diversas mordomias para viver de uma forma plena e que fizesse sentido para ele. Em sua autodefinição, ele é alguém que gosta de pensar e de causar a reflexão. Hoje vive de artesanato viajando pelo país, fazendo amizades e sendo ouvido sobre seu método de vida.

Em um trecho do documentário, Eduardo Marinho fala exatamente sobre a evolução do mundo e seu caminhar. “Eu tô melhor hoje do que era antes. O mundo hoje está melhor do que era antes. Apesar desse caos, antes era pior. As pessoas se relacionavam mais agressivamente. As penalidades institucionais eram hediondas... empalamento, chibata, forca, isso era institucional. A família ia assistir o enforcamento, fazia piquenique para ver o cara ser enforcado. Quer dizer, tem um caminho de sensibilização, de evolução. Lento. Se a gente olhar para a parte da barbárie a gente não vai acreditar que acontece, a gente não vai perceber que acontece. Mas se a gente tiver uma visão mais geral, você vê que está caminhando. Você não vai ver o mundo perfeito e nem o mundo justo, mas eu preciso caminhar nesse sentido. Nada está parado, tudo está em mutação. Eu nasci aqui? Eu sou obrigado a participar. O que eu quero é escolher como participar”.

Sobre a educação, Eduardo aponta que já existe uma doutrinação que nos pré-dispõem a certas condições. “A criança já vai sendo enquadrada para encarar o trabalho como sacrifício. ‘Você só vai se divertir na hora do recreio’. Setorizam sua alegria. ‘Você vai se divertir nas horas vagas’. No fundo, você vai viver nas horas vagas. Você vai fazer o que você gosta nas horas vagas. Você está sendo programado para odiar o seu trabalho e adorar a sexta- feira.Para quando você for se divertir, estar tão pressionado, que você não vai se divertir, você vai descarregar. E nesse descarrego você vai consumir, e nesse consumo você vai dar lucro. Até o seu prazer vai ser controlado, vai ser induzido.Vão construir dentro de você”. Assista a um ótimo trecho deste documentário neste link.

Então experimente parar um pouco. Respire. Estamos correndo para onde? Competindo para quê? Observe se você não está no automático. Questione-se porquê o que você gostaria de fazer na vida não é o que você faz hoje. Qual estaca ou corda te impede? Um bom começo é desaprender os velhos preceitos e enxergar de uma forma mais plural, onde uma vida focada no bem-estar de todos seja, como observado, o mais indicado para a saúde e para uma trajetória cheia de alegria.

Agora, está na hora de voltar para a rotina. Encontrar significado naquilo que fazemos é muito importante para que o tempo passe com mais leveza. A dica de um ótimo remédio caseiro para colecionar boas experiências é reaprender sempre. E não se esqueça, não permita que nenhuma corrente prenda você.

Documentário Observar e Absorver completo:https://www.youtube.com/watch?v=I7arqW5luKc


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