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delírios conscientes

Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator.

A MORTE NOS TORNA HUMANOS

Nossa trágica redescoberta da empatia


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A tragédia da vida é o que morre dentro do homem enquanto ele vive. Esta frase é do filósofo alemão Albert Schweitzer e chama a atenção por uma realidade crua que se expande nos dias de hoje: a perda de nossa humanidade.

Se observarmos os passos que a sociedade mundial trilha, vamos descobrir que esses caminhos são contraditórios aos avanços da modernidade e comunicação. Afinal, quanto mais desenvolvemos ferramentas de interação, menos nos entendemos e mais nos isolamos. A cultura orientada ao sucesso criou um ambiente no qual a individualidade é fomentada e a empatia encontra poucos caminhos para florescer. Formamos bolhas ao invés de grupos.

Nosso debate não é político, porém a política costuma retratar as ideias de um povo e serve de indicativo. Para nós brasileiros, essa afirmação pode causar bastante vergonha tendo em vista as pessoas que nos representam. Mas os políticos, no quesito psíquico, retratam a maturidade social de uma população. A crescente “extrema-direita” em todo o mundo vem surgindo e não por acaso. Isso nos revela um padrão de pensamento e permite formar um diagnóstico para ajudar a entender onde isso pode nos levar.

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Apenas para contextualizar este cenário, na Europa, a Áustria teve eleições presidenciais no último domingo e a extrema-direita, com ideias contra a imigração, a favor da saída da União Europeia, entre outras posturas menos inclusivas apresentava ligeira vantagem. Tanto que, preocupada com essa crescente visão radical, Frau Gertrude, uma sobrevivente do holocausto, fez um vídeo que viralizou por lá comparando o discurso deste homem extremista com as atrocidades de sua experiência. A aposentada de 89 anos faz um discurso muito interessante e pede aos eleitores não votarem no candidato ultranacionalista. Em referência ao período nazista, afirma que estas atitudes revelam os piores instintos das pessoas. A vitória foi do adversário, ecologista, com uma margem apertada. Outro indício é a vitória de Donald Trump à presidência dos EUA, sendo reflexo de uma sociedade menos tolerante.

Já aqui no Brasil, não é preciso ir muito longe para se deparar com ideais radicais e pessoas que acreditam no Bolsonaro para presidência em 2018. Por isso, a crescente ascensão “direitista” pelo mundo reflete um status quo que nos força à reflexão à medida em que este mindset não vai de encontro com a evolução da sociedade. Esse macroambiente é uma fotografia de um estado de espírito coletivo. Em meio a tantas possibilidades, o que vemos é uma crescente irracionalização, um retrocesso no pensamento: racismo, guerras religiosas, seitas, consumismo e todas as polêmicas que são berradas em timelines sociais, transformando aquele espaço em uma selva digital.

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No meio disso tudo, aconteceu o acidente com o avião que levava o time e equipe da Chapecoense, jornalistas e a tripulação, para a final da Copa Sul-Americana, causando a morte de 71 pessoas na Colômbia, no último dia 28/11. A fatalidade teve uma repercussão forte. E como uma lótus, se desabrochou em um pântano escuro e sem afeto que estava a nossa sociedade. Mostrou um traço das pessoas que está enfraquecido, porém vivo, e que exatamente por isso precisa ser exercitado: a tal humanidade perdida, geradora de empatia e entendimento. Vestidos de branco e carregando velas e flores, milhares de pessoas homenagearam as vítimas do acidente no estádio Atanasio Girardot, que residiria a partida final entre o Chapecoense e o Atlético Nacional. Outras milhares ficaram do lado de fora e diversas manifestações de solidariedade ocorreram de modo a dar esperança na construção de uma sociedade com mais consciência, uma sociedade que valoriza o próximo, na contramão do ódio crescente e dessa tendência de criar muros ao invés de pontes.

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Há todo um contexto neste lamentável episódio muito mais profundo e que pode ir para diversas direções. As próprias causas do acidente é uma delas e tem seu viés mercadológico e de descaso, um ponto extremamente sensível a se refletir. Apesar disso corroborar com nossa hipótese, não é interessante para esta reflexão aprofundar este aspecto. O importante é que desta fatalidade muitas pessoas experimentaram a empatia, dentro ainda quase sempre pela competição como o futebol e que já provou em diversas ocasiões comportamentos mais primitivos.

Assim como muitas manifestações positivas e homenagens que deram uma lição de solidariedade e, acima de tudo, humanidade, teve também sempre aqueles que se aproveitam do momento e tomam atitudes não muito éticas, como o caso da NetShoes e Catraca Livre, porém esta minoria logo foi hostilizada e ficaram como um mau exemplo.

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Em uma cultura que estimula sempre a vitória e o bem-estar, uma perda pode ter muito a nos ensinar. A preocupação é perder de vez a habilidade de nos comover. E isso não é impossível, hoje mesmo já existe um forte traço desta anestesia social em nosso cotidiano. Diariamente, 219 pessoas morrem na guerra da Síria, isso representa mais de três aviões como o da tragédia com da companhia boliviana Lamia, que nos tocou tão profundamente. Grande parte do mundo é cego perante a essa atrocidade.

Muitas filosofias e ideologias dizem que o homem é um ser social. O grande pensador Aristóteles é um que afirma que pelo fato de sermos os únicos animais com o dom da fala, somos capazes de indicar o conveniente e o nocivo, e também o justo e o injusto. Acredito no ponto de vista no qual aprendemos a sociabilidade e que somos seres extremamente egocêntricos, e o outro me toca na proporção que eu me identifico nele, pois apenas aquilo que tem sentido para nós torna-se relevante. Precisamos resgatar esse “sentido” nas pessoas, nos identificar com o humano, respeitar sua pluralidade e ter disciplina de fazer isso com humildade. Quem sabe assim, não seja necessária uma tragédia para lembrar-nos do ser humano que vive dentro do animal Homem.

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Ahas

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