weltschmerz

delírios conscientes

Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator.

Temos 5% de chance de mudar o mundo

Ou, se preferir, 95% de fracasso.


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A finitude força a pensarmos o coletivo, pois começa a se aproximar o momento em que alguns poderão ter acesso a recursos naturais e outros não. Estamos em 2017 e até o momento não vivemos uma escassez representativa que colocasse nossa espécie em cheque. Porém, a passagem do Homem neste planeta mostra a exploração máxima da natureza ao benefício próprio. Entretanto, a pouquidade cresce à medida em que o termo sustentabilidade ganha corpo e, aos poucos, vamos assimilando a sabedoria que há atrás de seu conceito e que transcende o significado cunhado nos dicionários.

A percepção cada vez mais clara da urgência de se pensar o mundo indica que por todo este tempo estávamos caminhando para o lado errado da evolução. Não a evolução dos smartphones, das tecnologias ou do mundo material que nos cerca, mas sim o entendimento do outro, o crescimento do indivíduo como consciência, de uma lucidez de espírito. Nossa espécie ainda vive na infância em termos existenciais, basta olhar para nós. O atual modelo econômico não prevê a responsabilidade de seus atos e está focado na produção e vendas. O consumo foi incorporado à cultura de tal forma que é visto como identidade. O sociólogo e filósofo francês Jean Baudrillard coloca bem esta questão parafraseando Descartes: “consumo, logo existo”, pois a construção do eu e as relações com os outros têm características de práticas de consumo. Visão também de Bauman e o conceito de Modernidade Líquida.

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Vamos evitar “chover no molhado”, não nos estenderemos nesta questão para dizer aquilo que todo mundo já sabe. Todos, de alguma forma, consentem que as coisas estão erradas. A diferença é que vivemos um momento em que realmente podemos fazer algo para mudar o caminho que as coisas estão tomando e trilhar para uma direção que faça mais sentido para a humanidade. A boa notícia é que temos de 4 a 5% de chance de transformar esse trajeto evolutivo, pois esta modificação já existe. A notícia ruim é que os outros 95% ainda caminham no sentido habitual. Essa caminhada não vai ser nada fácil.

5% é a porcentagem do total do PIB mundial que corresponde às empresas que já atuam com uma visão corporativa humanitária. É pouco frente aos 95% restantes que ainda vivem o velho modelo econômico defendido pelo economista Milton Friedman, que acreditava que a finalidade da empresa é dar lucro. Ele não está errado, mas a forma como ele acredita que isso se dê pode estar equivocada. Existem exemplos muito bons que indicam que lucro não precisa ser o vilão da história e pode ser obtido de outra forma que não seja maximizar o volume e consumo.

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O primeiro passo para entendermos onde está nosso erro é a percepção do nosso mundo e de como estamos vivendo nele. Para nos ajudar nisso, anualmente um dos mais conceituados dicionários do mundo e referência para a catalogação de novas palavras, o Dicionário de Oxford, escolhe um termo com base nos acontecimentos do mundo que é incluído ao vocábulo oficial, como forma de assimilarmos o momento em que vivemos. O Dicionário escolheu a expressão “pós-verdade” para 2016. A nova palavra é um adjetivo "que se relaciona ou denota circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência em moldar a opinião pública do que apelos à emoção e a crenças pessoais". Acredito que especialmente nós, brasileiros, vivemos isso intensamente no último ano.

Mas se analisarmos a pós-verdade, chegaremos à conclusão que ela é uma faca de dois gumes. Para pessoas medíocres, vai intensificar a mediocridade; para intuitos mais nobres, irá ampliar seu alcance. No fundo ela traz o motor da transformação que precisamos, indica a oportunidade da mudança de direção, pois prova que a crença constrói a realidade. Na literatura, Rubem Fonseca já flertava com essa ideia e dizia que “o que importa não é a realidade, é a verdade, e a verdade é aquilo em que se acredita”. Neste momento, independentemente do grau evolutivo de cada um, as pessoas mostram-se mais interessadas nestes assuntos, propiciando uma postura, uma atitude, o que torna o agora ainda mais decisivo.

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O economista e empresário Pavan Sukhdev, autor do livro “Corporação 2020”, faz parte dos 5% que caminham na nova direção evolutiva. Em sua visão, o lucro é essencial, ele compara o lucro em uma organização com a respiração, “eu preciso respirar para viver, mas o propósito da minha vida não é respirar”. Sukhdev também nos lembra da origem das empresas nas sociedades, seu princípio na Índia, por volta de 800 a 1000 a.c., chamado “sreni” e alguns séculos depois no antigo Império Romano, como “publicani”, ambos com finalidade públicae social, ele ainda complementa dizendo que 70% dos empregos e do PIB do planeta é do setor privado. Isso significa que a política segue o que o setor privado determina, e não o contrário como costuma se acreditar.

Portanto, essa nova visão corporativa é o caminho da transformação. A empresa com visão social surgiu com a necessidade da sustentabilidade, quando empresários perceberam a responsabilidade que as organizações têm nas sociedades em que atuam. O pathos procede o logos, ou seja, a experiência principia a razão, como afirma um dos nomes mais importantes da medicina e filosofia, Georges Canguilhem, é por sofrermos que agimos.

O Ex-CEO da PUMA, Jochen Zeitz, também acredita nesse caminho e diz que “precisamos sair da era dos negócios que causam danos colaterais para negócios que causam benefícios colaterais”, ou a visão de Paul Polman, CEO da Unilever, “se focarmos nossa empresa em melhorar a vida dos cidadãos do mundo e chegarmos a soluções sustentáveis genuínas, isso irá resultar em bons retornos para os acionistas”.

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A pressão do setor privado pode moldar a economia e desta forma é capaz de alterar o rumo da sociedade. Muitos CEOs já percebem isso, não à toa Bill Gates saiu da liderança da Microsoft para se dedicar a entidade beneficente que criou e Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, investe tanto em pesquisas e desenvolvimento de ações sociais. São estes empresários que precisam compor o mercado. Porém, todos eles somados representam, hoje, apenas 5% do PIB global.

A cadeia funciona da seguinte forma: as campanhas políticas e todo o poder público utilizam patrocínio do setor privado, que por sua vez é a principal fonte de renda dos governos através dos tributos de seus trabalhadores e produtos. O setor privado, ao mesmo tempo que molda o pensamento das pessoas, responde aos estímulos dos cidadãos. Esses novos CEOs ouviram parte da sociedade com consciência social, que, inclusive, não se importaria em pagar mais por processos totalmente éticos, não quer tirar vantagem em prol da exploração do outro. Ou seja, nós, meros mortais e compradores, somos o insumo e inspiradores dessa transformação.

Existem também riscos iminentes. O retrocesso está à espreita e tem força. Na contramão desta tendência, Donald Trump, atual presidente dos EUA, vem tomando medidas exatamente opostas à nova visão responsável da economia. O novo presidente acaba de assinar um decreto que autoriza projetos de dois polêmicos oleodutos, obras que trazem grandes impactos ambientais e que estavam congeladas no governo Obama. Agora, em prol da geração de emprego, Trump aprovou ignorando as restrições ambientais e culturais, pois estas obras também afetam reservas indígenas em Dakota do Norte. Além disso, o atual governo vem “fechando” os EUA em pleno mundo globalizado, como a assinatura do decreto para retirar EUA de acordo com países do pacífico, a construção do muro na fronteira com o México, defende técnicas de tortura como o afogamento para interrogatórios terroristas e outras medidas completamente fora da realidade e que fomentam a visão do consumo e volume.

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É surpreendente ver em pleno século 21 posturas deste tipo e declarações como a de Sean Spicer, novo secretário de imprensa da Casa Branca, que após críticas à imprensa por publicar uma imagem com o comparativo de público presente na posse de Trump e de na de Obama, apenas disse que "foi o maior público que já acompanhou uma posse. Ponto!", ignorando as perguntas dos jornalistas. Um exemplo prático do termo pós-verdade aplicado no dia a dia.

Podemos também criar a nossa pós-verdade e seguir o conselho de Ferreira Gullar, poeta ocupante da cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras, que faleceu em dezembro de 2016. Em sua penúltima publicação no jornal Folha de S.Paulo, o poeta deixou uma mensagem criticando o atual modelo econômico, dizendo que o acúmulo traz a falsa sensação de felicidade. Outros pensadores e economistas também preveem mudanças no sistema de capital com a crescente economia colaborativa, que vai tornar mais fraca a influência do mercado capitalista no mundo. Estes são bons ventos para uma mudança de curso, e é como disse o escritor Érico Veríssimo, “quando os ventos de mudança sopram, umas pessoas levantam barreiras, outras constroem moinhos de vento”. E então, o que queremos construir?

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Ahas

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