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Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator.

A influência em um mundo de influenciadores

Quem são os novos líderes sociais no mundo virtual/real


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Há mais de 2 milênios, um homem motivou um incontável número de pessoas mundo a fora e se tornou o líder mais famoso que já pisou por aqui. Conhecido como Jesus Cristo, ele foi o que podemos chamar de primeiro grande influenciador que este planeta teve. É o exemplo perfeito que deixa clara a importância desses “guias” na vida não só das pessoas, mas também na construção das sociedades.

2017 anos depois, os “Jesus” da contemporaneidade estão na Internet e têm seus rebanhos, ou melhor, seguidores, que são fiéis à sua palavra. Essa característica humana não é novidade, nossa necessidade de ter e seguir líderes é algo histórico, sendo uma ferramenta essencial na formação social. Somos seres movidos por mentores, porém a discussão que se propõe é compreender quem são essas pessoas seguidas hoje e entender qual o valor desses personagens para um papel tão fundamental. O principal medo é se o palpite do famoso escritor Umberto Eco fizer sentido: “As redes sociais deram voz a uma legião de imbecis”. Será que estamos seguindo imbecis?

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O universo dos YouTubers já é a menina dos olhos de ouro do marketing e do mundo das marcas. Em uma época de intensa concorrência, a única maneira de se aproximar dos públicos é por meio da empatia do relacionamento. Para isso acontecer ele deve ser cada vez mais humano. Utilizar a autenticidade daquele cara que fala engraçado no YouTube ou daquela menina que dá dicas superlegais sobre tudo é uma maneira perfeita de humanizar produtos e serviços. Essas pessoas utilizam seus canais sociais para interagir com fãs e seguidores e se transformam em verdadeiros formadores de opiniões.

A verdade é que muitas empresas gastam milhões pelo poder dessa influência. Muito dinheiro invadiu este espaço que se transformou num mercado muito lucrativo. Kéfera e Felipe Neto são exemplos de quem atingiu a independência financeira só com vídeos no YouTube, antes dos 25 anos. Algumas personalidades chegam a cobrar até 100 mil reais por uma simples postagem na rede social Instagram, por exemplo.

Atualmente, a linha entre off e on-line é tênue o bastante para que um mundo canibalize o outro. Vivemos em uma sociedade na qual para a maioria a primeira coisa que pegamos ao acordar e última coisa que tocamos antes de dormir é nosso smartphone. Grande parte das conversas do cotidiano real é sobre o que acontece no virtual. A proporção que isso toma na formação de pessoas que nasceram imersas nesse mundo é algo a se observar.

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Antigamente os ídolos eram pessoas que tinham efetivamente repertório cultural e sua influência era genuína de reconhecimento coletivo. O que vemos no mundo digital é que qualquer um consegue este status apenas com curtidas e compartilhamentos, formando uma legião de seguidores. Em qualquer sociedade, independentemente de sua época, o que tem poder verdadeiro é a influência.

Então, a partir de todo esse cenário, a internet fez a sua mais perfeita criação: o chamado influenciador digital. Este termo é designado para pessoas bem relacionadas no mundo virtual, com alcance de voz e imagem a milhões de pessoas. Aí que mora o perigo que Umberto Eco nos chamou atenção no começo deste texto. Quando pessoas comuns e sem referenciais relevantes, denominadas por ele como “imbecis”, se transformam em portadores da verdade. Por isso a qualidade desses mentores tem de ser questionada.

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O mundo perfeito do virtual começa a mostrar suas fragilidades no mundo real. Há casos interessantes que ocorrem deste choque entre o real e o virtual. Neste impacto, nasce um angustiante paradoxo: para gerar conteúdo, é necessário ter conteúdo. O caso de O’Neill ilustra esse conflito. Com mais de 600 mil seguidores, ela postou “Eu nunca estive tão miserável. Likes, visualizações e seguidores não são amor”. E postava fotos expondo essa verdade, “mais uma foto tirada puramente para promover meu corpo de 16 anos de idade”.

Há também o outro lado desta história que além de muito forte, não deve ser ignorado. O mundo digital está cheio de bons exemplos de como favoreceu o diálogo e consciência para importantes temas. Graças aos mesmos influenciadores digitais, foi possível ter diálogo em questões polêmicas dando voz às minorias e sendo responsável pela ruptura de diversos tabus. A flexibilidade da questão fornece prismas a analisar. Contudo, o diagnóstico que fica claro e que chamamos atenção é a carência de ídolos da nossa contemporaneidade e a falta de autonomia do pensamento que essas novas características salientam.

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O excesso de vozes produzidos pelos meios digitais precisa passar por uma educação de filtro para que as pessoas tenham referenciais que sejam realmente relevantes e tragam valor à vida. Ignorando os aspectos mercadológicos por trás do incentivo a este tipo de mídia, a ética e coerência devem sempre permear esses canais. Pois com essa banalização dos mentores, até o mais ignorante dos discursos ganha poder e, consequentemente, influência.

De certa forma, o que está sendo formado aqui é a nova sociedade em resposta às transformações na comunicação. Aristóteles, filósofo grego do século IV a.C., na sua obra Política, traz uma visão muito interessante sobre a natureza humana e o propósito da humanidade na Terra. Na análise do filósofo, o homem tem sempre necessidade do outro por ser essencialmente carente, e isso traz em nós o impulso de viver em sociedade. Essa “carência” fica muito evidente nas redes sociais hoje onde pessoas se desesperam por atenção e likes, fazendo os mais variados absurdos para atingir este objetivo. O autor propõe que o caminho para se chegar ao ideal dessas necessidades com harmonia é pensar a coletividade.

Para pensar em coletividade é necessário entender que os processos sociais se dão exatamente nessas mudanças de referências. Sob este ponto de vista podemos ter uma oportunidade latente se direcionarmos essa energia para algo que seja produtivo. Dessa forma será possível trabalhar esse excesso de líderes respeitando a pluralidade e direito de voz da sociedade.

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O segredo para lidar com tudo aquilo que é demais é a sabedoria em filtrar. Nosso tempo é restrito e precisamos ter sempre algo que os jornalistas antigos conhecem muito bem: fontes confiáveis. Conceder a confiança a um pensamento é partilhar do mesmo princípio. É necessário questionar as opiniões que chegam a nós e desenvolver o próprio ponto de vista, e não ser um papagaio virtual que apenas repete conteúdo sem nenhuma autonomia.

Esta seria a evolução social que o momento proporciona. Essas características e a maturidade da rede força repensar a liderança na sociedade. Desta forma, podemos nos tornar cada vez mais autônomos no raciocínio, com foco sempre no coletivo como ideal, pois voltando à Aristóteles, “o homem vivendo em sociedade está no seu lugar na hierarquia dos seres. Não é nem deus nem animal, mas o melhor dos animais, porque é capaz da justiça”. É, claramente, um ideal, e fica até complicado falar em justiça em um Brasil desgastado pela ganância dos corruptos. Mas não custa acreditar que este seja um ideal que valha a pena, pois no fundo depende de nós mesmos, concorda?

É fundamental procurarmos apoio aos nossos pensamentos e nos conectar com pessoas que tragam uma visão mais desenvolvida que a nossa para que possamos, juntos, crescer. Estar aberto a isso é o primeiro passo, depois precisamos ter cuidado para escolher quem são esses mentores. Vivemos na era do conteúdo, o temos em abundância, o que é necessário agora é a era da curadoria, no qual as pessoas filtrem deste excesso o que é realmente relevante e o que não passa apenas de uma simples opinião.

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