weltschmerz

delírios conscientes

Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator.

Dê pressão

pressione o debate sobre o suicídio


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É difícil imaginar que algo que tenha tamanha proporção se comporte de forma tão “sutil” e quase desconhecida. O silêncio que existe em torno do tema suicídio sufoca dados que gritam bem em baixo de nossos olhos. Somente no Brasil, a cada hora uma pessoa se mata. Se vermos a questão em uma escala global, vamos descobrir que o suicídio é uma das maiores causas de mortalidade da nossa espécie. Segundo a OMS, a morte voluntária acomete uma pessoa a cada 40 segundos, o que equivale a 1,4% dos óbitos totais do planeta. Entre os jovens, o índice cresce ano a ano, mas eles não são os únicos afetados: pessoas de todas as idades morrem desta forma. Números que merecem atenção e a reflexão sobre os motivos que levam uma pessoa a tirar a própria vida.

Existe todo um tabu sobre a discussão do suicídio. A OMS e órgãos reguladores da imprensa têm regras de como noticiar mortes dessa natureza com instruções sobre como abordar o tema. Isso porque acredita-se num fenômeno chamado “O efeito Werther”. Werther é personagem de um clássico chamado Os Sofrimentos do Jovem Werther, do alemão Goethe. O livro traz a história da desilusão amorosa deste jovem e acaba com o personagem tirando a própria vida. Na época do lançamento (1774), a obra influenciou diversas mortes nas mesmas circunstâncias, fazendo que o título fosse proibido em 3 países.

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“Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio”, é assim que começa um dos clássicos da literatura, O Mito de Sísifo, de Camus. Além do Werther, diversos personagens de muitos autores exploram o tema. Tolstói, Flaubert, Byron, Shakespeare, Álvares de Azevedo e tantos outros viram na renúncia da vida, fonte de inspiração. A filosofia também tem seus posicionamentos. Schopenhauer, Nietzsche e até o sociólogo Durkheim já discorriam do assunto. Durkheim afirmava que o suicídio era um fenômeno puramente social. Sêneca considerava vantagem dos homens sobre os demais animais a possibilidade de escolher morrer. O antigo Plínio acreditava que “em todas as misérias de nossa vida terrena, poder abranger nossa própria morte é o melhor presente de Deus ao homem”. E do lado da psicanálise, Freud explica. Para ele, essa “pulsão de morte” pode estar presente em qualquer estrutura psíquica.

Se analisarmos isso como um todo (literatura, filosofia e psicanálise, abstendo-se ainda dos fatores fisiológicos da depressão), podemos concluir que a depressão é um fenômeno natural do cérebro. Em algum grau, todos nós experimentaremos este estado de Melancolia, ou seja, a “patologia dos humores tristes” como se dizia na antiga Grécia. Esse processo faz parte da evolução do indivíduo como pessoa. Qualquer ser humano que já se aprofundou em seu ser provou a sensação de um vazio existencial que parece nos tirar toda a fé. A depressão é, sob este ponto de vista, uma resposta psicológica do impacto da nossa essência com a realidade. Faz parte da necessidade em dar um sentido à vida. Sendo assim, a única condição que nos predispõe ao estado de depressão e ao suicídio é “ser humano”.

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O aumento de vítimas em comparação com o público potencial deste distúrbio mostra que vivemos uma epidemia em escala global. E o receio em falar sobre depressão e suicídio tem a ver com isso, pois esses assuntos têm alto teor contagioso. Pesquisas indicam que em períodos seguintes a notificações de suicídios ocorrem mais incidências de casos. Andrew Solomon, no famoso livro O demônio do meio-dia – uma anatomia da depressão, corrobora com essa visão dizendo que “O contágio do suicídio é incontestável”. Isto torna mais imperativo a compreensão da estrutura da depressão, para que dessa forma se possa abordar o suicídio de forma preventiva, pois além de ser uma questão de saúde pública, é uma doença com diagnóstico, tratamento e remissão.

Existe uma metáfora conhecida como “cachorro negro”, que ficou popular com Churchill, quando ele relata à sua esposa a necessidade de procurar um médico enquanto o “animal” cachorro negro se afastou. A OMS fez até uma campanha sobre depressão utilizando esta mascote, chamado de “Eu tinha um cão negro, seu nome era depressão”. Este é um bom exemplo para mostrar como a doença funciona. Em outra analogia mais simplista, podemos imaginar a depressão como o vírus do herpes. Uma vez no organismo, ele convive conosco pelo resto da vida e se aproveita da baixa imunidade para aflorar. Toda a vez que nossas defesas psíquicas ficam mais fracas, estamos propensos a nos sentirmos deprimidos.

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Se aprofundar nas causas é bastante complexo, pois elas têm diversos fatores. A própria felicidade, antagônica à depressão, antigamente tinha um caráter social e teve seu conceito “adulterado” para uma percepção mais individual pela pressão do mercado. Sob este aspecto, o sociólogo Durkheim tinha razão em definir a depressão como um fenômeno social. Muitos que estão no grupo dos depressivos são potenciais suicidas, mas a grande maioria não chega a realizar o ato do suicídio. Assim como pontua o escritor e pensador Hermann Hesse em sua obra “O Lobo da Estepe": “Não se devem considerar suicidas somente aqueles que se matam. Entre estes há suicidas que chegaram a ser por mero acaso, e de cuja essência o suicídio não fazem realmente parte”.

O que precisamos é aprender a lidar com este monstro interior. A capacidade de grandeza de uma pessoa é o quanto ela consegue controlar os animais ferozes que existem dentro de si. Entre eles, esse cachorro negro, que é domesticável e pode se tornar um animal dócil. Algumas coisas são muito importantes para controlar o aumento da melancolia. A fé é uma das mais fortes barreiras para a depressão, e não digo somente a fé religiosa, mas acreditar em algo mesmo que seja um propósito. A esperança é outro elo, não à toa as pessoas costumam dizer “não deixe de sonhar”, pois são estes pequenos detalhes que dão sentido à vida e mantém a estrutura de toda a sanidade psíquica.

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As palavras têm muito poder. Empatia, colocar-se no lugar do outro e saber que ele pode estar acompanhado de seu cão naquele dia. O que a depressão realmente faz com a pessoa é paralisá-la. Ela perde a vontade de tudo, muitas vezes tem consciência disso, o que torna esta angústia ainda pior. Por isso que uma palavra pode mudar tudo e dar aquele empurrão para a pessoa sair da inércia. Algumas vezes até as palavras podem ser nocivas, é preciso ter sensibilidade neste momento, pois cada um lida de uma forma diferente com a dor. Mas o que costuma ser sempre positivo neste cenário é estar por perto. Se tivermos a capacidade de cuidar um dos outros, a depressão não terá espaço para evoluir.

"Cheguei a um ponto da minha vida em que posso simplesmente desistir, e morrer, ou lutar por aquilo que quero. Eu escolhi lutar. Queria ter bons relacionamentos. Queria amar as pessoas que me rodeiam, usufruir do meu trabalho", essa fala é de uma das últimas entrevistas de Chester Bennington ao jornal britânico "The Mirror”. Ele era vocalista da banda Linkin Park e se matou enforcado no dia do aniversário de seu amigo e líder da banda Soundgarden, Chris Cornell, que também tinha tirado a própria vida meses antes, da mesma forma. É uma pena que, infelizmente, em algum momento, Chester desistiu. Temos que escolher lutar. Quanto mais construirmos nossos apegos, nossas crenças e nossos sonhos, mais fácil será lidar com a visita deste cão. E ele virá.

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Prevenção ao Suicídio CVV Brasil - disque 141 | 0800 290 0024


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