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delírios conscientes

Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator.

Qual sua desculpa hoje?

350 mil anos de evolução para ainda nos autoenganar


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Zona de conforto” é um termo bastante comum designado a pessoas que estão acomodadas e não se arriscam ou inovam. Este nome não é à toa. Pois conforto é algo que nossa mente, por instinto, busca e se apega. Este é um dos motivos de ser muito complicado sair desse aconchegante e seguro local. Mas, sinto-lhe em informar que o conforto mental é, na maioria das vezes, uma mentira, e o pior: uma mentira que contamos a nós mesmos.

Este tipo de falsidade com a gente mesmo é tão ruim que até existe um provérbio popular que afirma exatamente isso. Do ponto de vista psíquico, Freud também se refere a este comportamento ao dizer que "o homem da cultura trocou uma parte de felicidade por uma parte de segurança". Ou seja, são as mentiras que contamos a nós mesmos em nome do conforto. E acredite, elas acontecem com mais frequência que imaginamos, afinal, lembre-se que nosso cérebro é programado para nos manter longe de problemas. Seu propósito é proteger a vida do corpo pelo maior tempo possível e não nos expor a riscos, nem que para isso ele tenha que enganar a consciência.

Esse comportamento fez nossa espécie perpetuar e chegar até aqui. Então, mesmo que seja um traço primitivo, ele faz parte da estrutura do cérebro humano e está enraizado no funcionamento da nossa mente. Atualmente, essa característica não é mais decisiva para nossa sobrevivência, porém isso não basta para alterar esse “modus operandi”. Precisamos aprender a domesticar nosso cérebro. Controlar a mente para que ela seja uma aliada, pois ela é um selvagem e se não tiver controle irá nos transformar em uma pessoa que apenas reage ao invés de agir. Uma mente que apenas reage tem seu comportamento reduzido a um reflexo, ou seja, uma reação automática. Dessa forma, não exploramos nossas capacidades e atrofiamos. Quando nosso cérebro trabalha junto da consciência, construímos a ação e temos o ser em sua plena atividade de existência.

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A culpa não é toda do “cérebro primitivo”, mas ele é cheio de artimanhas para puxar nosso tapete e, muitas vezes, parece estar contra a gente. A ciência ajuda a entender um pouco desse comportamento sabotador. Um exemplo deste “mecanismo” pode ser visto em estudos que relacionam dietas e o cérebro. A dificuldade em seguir uma dieta tem como responsável uma mente sabotadora. A grosso modo, a explicação é que no início da evolução humana o armazenamento da maior quantidade de energia pelos alimentos era vital para sobreviver, porém hoje, mesmo sem a necessidade da caça, a resposta do cérebro permanece a mesma: guarde calorias, para isso, inclusive, ele faz reações químicas que reduzem o ritmo metabólico. Motivo que também explica porque preferimos o salgado calórico ao invés da folha de alface, mesmo que a consciência diga o contrário. O cérebro vai bem além disso, podendo inclusive ser fonte causadora de doenças ou baixar nossa imunidade. Vai dizer que você nunca pegou um resfriado que “coincidiu” com um evento importante?

Procrastinação, vitimismo, entre outros vícios de personalidade também são temas relacionados a este universo. A filosofia e psiquiatria sempre abordaram esses assuntos com nomes diferentes. Esse tipo de comportamento é estudado desde 1978, quando Steven Berglas e Edward E. Jones usaram o termo "autodeficiência". Outros pensadores como Freud, Jung, Melanie Klein, Sartre entendem que nosso instinto duela constantemente com nossa consciência e, se não treinarmos a mente, o instinto sempre vencerá. O que nosso instinto não percebe é que essa segurança que ele (inocente) tenta preservar se torna um anestésico que paralisa nossas ações, impedindo uma mudança ou qualquer tipo de evolução. E então ficamos presos a um eterno ciclo de repetições estagnadas.

Quer um exemplo de como isso acontece? Pense nas últimas coisas que você deixou de fazer com a justificativa de “não tive tempo”. No mundo moderno em que o dia precisa ter 48 horas para fazermos tudo que gostaríamos, esse argumento é tão plausível que essa é a resposta mais comum de se ouvir quando falhamos em algum compromisso. Mas vamos pensar com calma, será que não tivemos tempo mesmo? Substitua “eu não tive tempo” por “isso não era prioridade”. Entendeu? Você verá que o compromisso que você deixou de lado não era prioridade, que no momento, para você, outras coisas eram mais importantes. O fato interessante aqui é que fizemos uma escolha e usamos uma muleta como justificativa. Afinal, encontrar culpados para nossas deficiências é a especialidade humana que desenvolvemos com maestria nestes anos de evolução.

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Provavelmente nos sabotamos em muitas coisas e com isso não desenvolvemos toda a capacidade criativa que temos e não expandimos nossas habilidades de compreensão. A felicidade também se torna mais distante por constantemente contarmos mentiras para encobrir nossas frustrações. Quanto mais você para de culpar o mundo e começa a responsabilizar a si próprio, mais percebe que somente nós somos a chave transformadora da realidade, e assim conseguimos agir, ao invés de somente reagir.

Ricardo Reis, um dos heterônimos do poeta e pensador Fernando Pessoa, tem uma intrigante frase que diz “Cumpramos o que somos, nada mais nos é dado”. É um convite para se autoconhecer, se despir das desculpas e máscaras que criamos, de vivenciar nossa vulnerabilidade. Como a forte afirmação do oráculo de Delfos “conhece a ti mesmo” ou o conselho de Nietzsche “torna-te quem tu és”. Isso significa que quebrar este ciclo requer um profundo mergulho em si mesmo, o que só pode acontecer quando somos sinceros com nossos desejos e, principalmente, fraquezas.

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“Se você acha que pode, ou que não pode, fazer alguma coisa, você tem sempre razão”, a frase do célebre Henry Ford resume bem o porquê temos que estar no controle da mente. O problema é que não é simples perceber que estamos nos prejudicando, e quando percebemos a autossabotagem já estamos em uma posição que não gostaríamos. Não basta apenas desejar sair dessa situação, aqui o querer não é poder, o querer deve estar condicionado, ou seja, deve se traduzir em ação e apelar para o seu lado mais racional: o planejamento. A partir daí não tem receita, usando a sinceridade, cada um sabe como traçar o caminho para se desenvolver em seu tempo criando metas realistas.

Pense duas vezes antes de dizer que não pode algo ou que não consegue fazer melhor, verifique se você mesmo não é a causa da limitação do seu potencial. Temos tendência de nos acomodar quando encontramos uma satisfação razoável ou por bem menos que isso, às vezes em nome da estabilidade, da conveniência ou até mesmo da covardia.

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Para ampliar nossa humanidade, é necessário evoluir a si mesmo e este caminho é uma trilha solitária, porém recompensadora. Naturalmente isso irá se expandir para o meio em que se vive tornando essa sabedoria em algo social. Esta reflexão fará com que existam menos opiniões reducionistas ou desculpas que encubram nossas omissões, evitando que pensamentos antiquados sejam fomentados.

Viver dessa forma existencialista é a verdadeira liberdade de espírito. Já parou para pensar o quanto de verdade seu espírito suporta? Não acredite em argumentos que dizem que “a vida é assim”. A gente se acostuma a tudo. Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. Aliás, esse é o título de um belo poema da Marina Colasanti que serve como pontapé inicial nesta jornada do autoconhecimento. Agora, sem mais desculpas.

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