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delírios conscientes

Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator.

Abandone sua fé

Nossas crenças são combustíveis do ódio


cherub_iii__by_mat3jko-d3c61xw.jpg A fé é a força mais poderosa da natureza, além de ser o elemento fundamental no desenvolvimento da espécie humana e sua consciência. O ditado que afirma que a fé move montanhas tem sua verdade assegurada pela razão, pois a fé é a única que consegue se sobrepor à realidade. Se pensarmos filosoficamente, a realidade é a percepção que temos dela, logo nossas crenças têm papel fundamental em dar significado ao entendimento do mundo.

Ao consultar a origem da fé no livro mais popular da humanidade, a Bíblia, ela diz que a fé é “a prova das coisas que se não veem." (Hebreus 11; 1.), já sua etimologia nos indica que ela é a firme convicção de que algo seja verdade, sem que para isso seja preciso uma prova de que este algo seja realmente verdadeiro, a absoluta confiança depositada neste algo ou alguém basta como argumento único. Ou seja, a fé é uma certeza. E é exatamente isso que nossas consciências famintas buscam desesperadamente desde que nascem.

Portanto, este traço nos define como espécie. A fé é de extrema importância por estabelecer uma relação de alteridade, na qual o próximo ganha uma identidade e valor. Além disso, muitos outros feitos surpreendentes são atribuídos à fé, com comprovação científica, como por exemplo, curas de doenças, controle da dependência química e outras situações impossíveis que foram revertidas por intermédio da fé. A ciência já se debruçou sobre o tema, a neurociência já sabe as áreas do cérebro ligadas à fé religiosa. A filosofia também tem suas impressões com intensos debates, desdobrando-se na teologia. Mesmo assim, até hoje, ninguém traz uma resposta confortável sobre o embate milenar entre a fé e a razão.

Para entender seu efeito é necessário refletir a fé como um todo. Para ficar mais simples de identificá-la, vamos atrelar a crença ao sentimento religioso, tornando-a mais palpável. Se por um lado a fé é uma nobre e bela manifestação humana com intuito de ligar o indivíduo a uma entidade que personifique a perfeição, em busca da iluminação e sabedoria, por outro ela impõe sua vontade acima das demais, considerando quaisquer outras crenças como desprovidas de verdade. E o curioso é que isso gera justamente o contrário daquilo que suas doutrinas pregam, resultando em um imenso ódio.

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Na filosofia, nomes notáveis como Espinosa dedicaram estudos sobre o poder da fé como disseminadora do ódio. “Inúmeras vezes fiquei espantado por ver homens que se orgulham por professar a religião cristã, ou seja, o amor, a alegria, a paz, a continência e a lealdade para com todos, combaterem-se com tal ferocidade e manifestarem cotidianamente uns para com os outros um ódio tão exacerbado que se torna mais fácil reconhecer a sua fé por estes do que por aqueles sentimentos” (Ética III – Tratado teológico-político). Nietzsche e Deleuze também fizeram análises e tiveram posições polêmicas não apenas contra o cristianismo, mas também contra o modelo de pensamento platônico, conhecido como reversão do platonismo. “Deus está morto” é uma das mais famosas frases da filosofia. Ela apareceu pela primeira vez no livro A Gaia Ciência e depois ficou popular na obra Assim Falou Zaratustra. Esta frase tem diversas interpretações. Seu real sentido determina o fim dos fundamentos da existência utilizando Deus como justificativa – muitos estudiosos acreditam que esta é uma crítica ao racionalismo conceitual do pensamento ocidental, mas, em outras palavras, Nietzsche nos convida a abandonar nossa fé para assim termos autonomia do pensamento.

Saindo do campo filosófico e indo para nossos registros históricos, temos exemplos dos mais entristecedores eventos que comprovam o quanto a fé pode ser cruel e doentia. Só a inquisição matou mais de 100 milhões de pessoas pelo simples fato delas pensarem diferente da doutrina cristã. A fé de Hitler o levou a crer que era correto eliminar todos os ciganos, homossexuais, deficientes físicos ou mentais, judeus e outras raças, indiscriminadamente. Recorrentemente nossas guerras têm como motivação a fé, sendo esta característica algo que permeia toda a história da humanidade. Ainda hoje a fé é assassina, por meio do terrorismo em todo o mundo e no Oriente Médio em conflitos armados. Em nome da fé, o homem já cometeu (e comete) atrocidades que desviam completamente do propósito fundamental do intuito religioso de transcendência e amor.

A fé propicia a intolerância. Voltaire, em Tratado sobre a Tolerância, classifica a intolerância como fruto de uma irracionalidade dos sujeitos, que deixam suas paixões cegarem a percepção da realidade e silenciarem a voz da razão. Algo bem similar ao conceito da fé. O ódio, por sua vez, tem um efeito devastador sobre a psique, pois ele nos faz ignorar a pluralidade de posições e a complexidade dos fatos em nome de preferências. Esta intolerância inviabiliza a construção da democracia, que necessita do debate neutro, refletindo sobre o argumento do outro, mesmo discordando integralmente de suas premissas. Somente esta via torna possível a construção de um consenso, evitando que injustiças sejam cometidas.

Esta síntese da fé é, na verdade, o preâmbulo de uma outra questão que eclode na contemporaneidade. Época de eleição. A ligação das eleições com a fé se dá por conta da falência intelectual dos debates, nos quais a imposição dá lugar à argumentação. O que não faltam são exemplos de discursos inflados e de ódio nas redes sociais. Não é novidade que a internet mais separa as pessoas, colocando-as uma contra as outras, do que promove debates saudáveis. Isso acontece desde sempre, mas o que chama atenção nos dias de hoje é a intensidade disso. Mesmo com toda a informação disponível, diversas fontes críticas que forçam a reflexão, as pessoas ainda têm a capacidade incrível de acreditar em coisas absurdas – aliás, essa é uma definição bastante adequada para a fé dos dias atuais.

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Esta “empatia seletiva” nos lembra um termo muito conhecido tanto na filosofia quanto na política que se enquadra perfeitamente nesse cenário: a alienação. O revolucionário socialista e filósofo, Karl Marx, acreditava que a alienação está relacionada com a necessidade do homem em recorrer à natureza para ser um ser social. O significado etimológico do termo é “tornar-se alheio”, algo que vai de encontro com o estado psíquico das pessoas. Ainda no campo da definição, o alienado é aquele que não compartilha da mesma realidade dos demais ou alguém que não está sob pleno domínio de suas faculdades mentais. Porém, quando trazemos o termo para o cenário social de hoje, essa definição não coincide, pois vemos pessoas com senso crítico que se mantêm alienadas quanto a evidências, por opção. Nesse ponto, a fé com a razão converge, formando, assim, a alienação, revestindo qualquer absurdo com lógica.

O que pode ser chocante é ver o quanto essas posições revelam da nossa própria natureza. Muitas vezes explicita nossa incapacidade de diálogo, de empatia. Parte disso é resultante da nossa forma de pensar que segue o modelo estético de Platão, filósofo que estruturou o modelo do cristianismo, no qual crê-se que somente por meio da ideia é possível ordenar o caos da existência. Desde sempre, aprendemos a formatar nosso pensamento nessa estrutura. Crer em algo e, a partir daí, adequar o mundo que nos cerca de acordo com aquele critério que estabelecemos. Observe que a força que mantém ligado o propósito ideal à realidade é exatamente aquela tida como a mais poderosa da natureza que falávamos anteriormente: a fé. Dessa forma, como vimos, é natural que tudo que vá contra aquele propósito seja encarado como inimigo, por mais que, em um contexto mais amplo, todos tenham o mesmo objetivo e estejam discutindo o bem comum.

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É simples de se perceber, mas ao mesmo tempo complexo de se corrigir. Desconstruir essa visão é o primeiro passo para trazer um pensamento mais livre das crenças e mais focado na razão. Certamente essa será uma via mais tortuosa e cheia de dúvidas. Sartre já dizia que as pessoas tendem a ficar mais perdidas com a liberdade, pois é muito mais difícil criar o próprio caminho ao invés de trilhar um já existente. Afinal, as religiões estabelecem esse tipo de conexão com as pessoas, criando “atalhos” que nos dão um pouco de calma e sensação de justiça em conviver com tantas contradições e cobranças.

Nessa escassez de representatividade e liderança, alguns transformam as migalhas que temos disponíveis como candidatos em verdadeiros banquetes na esperança que eles acabem com nossa fome de mudanças. Mas estes que creem sem refletir estão sob efeito da fé – não percebem que são somente migalhas. Se quisermos realmente ter julgamentos coerentes, precisamos abandonar nossas crenças. Mas não percamos a esperança de construir uma sociedade mais honesta, segura, inclusiva e que seja fonte de oportunidades para as pessoas.

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