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delírios conscientes

Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator.

Estamos ficando burros?

Os benefícios da modernidade têm uma contraindicação: estão atrofiando nosso cérebro.


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Os exércitos de alguns países fazem testes de QI em seus recrutas como requisito de seleção. É o caso da Dinamarca e Holanda, por exemplo. Porém, foi observado algo curioso nesses dados. O índice de quociente de inteligência, medido em pontos (a média da maioria das pessoas está entre 90 a 110 pontos em uma escala que vai até 160), mostra uma queda considerável ao longo das décadas. Isso despertou a curiosidade de alguns estudiosos que defendem a ideia de que estamos “emburrecendo” nos últimos tempos. Estaria a modernidade contrariando um dos maiores gênios da história, Albert Einstein, que afirma que “a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original”?

Há algumas teorias sobre o assunto e evidencias sobre o cérebro que podem nos indicar algumas respostas e nos ajudar nesta reflexão. A parte biológica é um bom princípio para explorar o tema, pois pré-define características importantes para entender como o pensamento é processado e como nossa mente forma conclusões e toma decisões. Nosso cérebro tem uma “trava” que mantém um filtro nas informações que recebemos. Isso porque se parássemos realmente para pensar em tudo que está em nossa volta, enlouqueceríamos. Esta região cerebral responsável por “desprezar informações indesejadas” (mesmo que sejam verdades irrefutáveis) chama-se córtex pré-frontal. Por isso é tão difícil as pessoas mudarem suas opiniões e a primeira impressão que temos das coisas tendem a ser mais fortes, mesmo com indícios concretos de um possível equívoco.

Isso nos faz pensar se somos mesmo os animais racionais, como define Aristóteles. Pois até o conceito aristotélico está em xeque hoje. Descobriu-se que espécies animais trocam informações sociais de geração para geração, de forma similar à humana em muitos casos, traço inerente à racionalidade. Além disso, alguns cientistas começam a redefinir o termo. Como é o caso do ponto de vista de dois famosos cientistas cognitivos, Hugo Mercier e Dan Sperber. Para eles, a razão é um processo inconsciente. Autores do livro The Enigma of Reason, eles defendem que a razão em nosso cérebro existe apenas para se justificar e gerar argumentos para convencer os outros. É como se nossa mente fosse uma máquina de mentiras que contamos a nós mesmos para dar sentido aos nossos desejos.

Uma série de outros estudos podem contribuir para esta visão. Sabe-se também de um curioso comportamento do nosso cérebro: repare, sempre temos razão. De medicina à política, sempre achamos que sabemos tomar as melhores decisões e ainda sabemos o suficiente de tudo. Estudiosos chamam isso de efeito Dunning-kruger, sobrenome dos investigadores da Universidade de Cornell que comprovaram a tese e afirmam que "a ignorância gera confiança com mais frequência do que o conhecimento". Segundo a definição da Wikipédia, este “é o fenômeno pelo qual indivíduos que possuem pouco conhecimento sobre um assunto acreditam saber mais que outros mais bem preparados, fazendo com que tomem decisões erradas e cheguem a resultados indevidos; estas pessoas sofrem de superioridade ilusória”. Lhe parece familiar este tipo de comportamento?

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Pois é, como se não bastasse, nosso cérebro ainda tem mecanismos mais sofisticados para defender as próprias ideias. Existe algo que os psicólogos chamam de “Viés de confirmação”, que é nossa capacidade de dar crédito a qualquer informação que confirme nossas crenças e ignore todos os outros que lhe contradizem. É o que faz aquela tia do WhatsApp compartilhar o Fake News sobre política. Um experimento em um scanner de ressonância magnética monitorou as atividades cerebrais de participantes expostos às declarações contraditórias de candidatos políticos que apoiavam. Os resultados mostraram que os centros emocionais de seus cérebros foram estimulados nestes momentos, o que não ocorreu durante a avaliação das outras declarações nas quais eles concordavam. As conclusões dos pesquisadores foi que as diferentes respostas cerebrais para as declarações não eram devidas a erros de raciocínio, mas sim porque os participantes estavam ativamente reduzindo a dissonância cognitiva induzida pela leitura sobre o comportamento hipócrita do seu candidato preferido.

Nesta perspectiva, para o cérebro “a mentira é tão involuntária como a respiração”, como diria o grande Machado de Assis. Nosso cérebro até tem uma boa intenção nisso tudo, quer nos proteger com esses processos. Mas se quisermos realmente aprofundar nosso pensamento, devemos duvidar de nossa própria racionalidade e driblar estas armadilhas cerebrais ao invés apenas dar crédito a qualquer coisa que se vê por aí.

Isso tudo ainda pode se intensificar. Essas características podem se agravar de acordo com os estímulos do ambiente que recebemos. Quem defende isso é um dos mais respeitados estudiosos sobre a evolução do QI humano, James Flynn. O Efeito Flynn provou com métodos científicos o aumento progressivo do QI após a segunda-guerra, impulsionado pelas melhorias na qualidade de vida e infraestrutura. Porém, existe um movimento conhecido como Efeito Flynn Negativo e teorias de que a evolução tecnológica mascare o desenvolvimento de nossa inteligência. O próprio Flynn estranhou a discrepância dos QIs durante as gerações. Afinal, como pode o homem do século passado ter como média o QI 70 e o de hoje 130? A pontuação de 70, atualmente, é a definida para retardo mental. Seriam as gerações passadas retardadas ou nós geniais demais?

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A interpretação mais coerente de Flynn é que a nossa capacidade abstrata aumentou por causa do estilo de vida que temos, e assim Flynn comprova que na verdade nos adaptamos melhor aos testes devido às formas de pensar, ao invés de nossa massa cefálica estar alcançando níveis geniais.

Burlamos até a teoria de Darwin, uma vez que desenvolvemos nossas ferramentas (o meio em que vivemos) mais rápido que nossa adaptação biológica. Com a brusca mudança do mundo digital e novas formas de comunicação, ocorre um impacto cognitivo. Estudos já identificam o efeito disso em crianças. Na Inglaterra, 28% das crianças da pré-escola não conseguem se comunicar usando frases completas. Acredita-se que isso seja consequência do uso excessivo de smartphones e de estarmos imersos em informações curtas, rápidas e cada vez mais superficiais. As crianças não leem nada aprofundado, não exercitam o foco e atenção. E com certeza isso afeta a nós também, cada dia que passa fica mais difícil ler um texto até o final, ver um vídeo no YouTube até o fim ou até mesmo ouvir um CD inteiro de uma banda/artista devido a nossa ansiedade digital.

Um estudo mostrou o efeito perturbador da tecnologia sobre nós. Nossos smartphones, por exemplo, já são vitais na vida de muitas pessoas que se sentem “nuas” sem eles. Esses “melhores amigos” drenam nossa capacidade de atenção, mesmo que estejam desligados. Adrian Ward, professor da Universidade do Texas, conduziu um estudo em que comprova que o aparelho, mesmo quando não estamos pensando nele, consome parte de nossos recursos cognitivos. Mesmo que o aparelho esteja em outro cômodo, ele ainda desvia sua atenção. Segundo os últimos levantamentos americanos, se comparássemos o uso atual dos smartphones ao vício do cigarro, seria como acender um cigarro atrás do outro, pois em média a checagem do celular é feita 150 vezes por dia, o que dá uma vez a cada seis minutos.

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Todos esses fatores estão nos fazendo sermos mais... rasos, para usar um eufemismo. Nossa cultura reflete estes impactos. Sem nenhum tipo de saudosismo, os grandes clássicos do cinema ou da música da contemporaneidade parecem não ser como os de antigamente. Isso não é mera impressão e pode ser um reflexo. Cientistas do Instituto de Pesquisa em Inteligência Artificial da Espanha analisaram 460 mil músicas lançadas nos últimos 50 anos. O estudo mostrou que a quantidade de timbres das músicas teve mais da metade de redução (60% e reduziu 50% na variação entre volumes mais altos e baixos). Já nos cinemas, os recursos visuais deram lugar aos roteiros bem-pensados e estruturados, temos aí em cartaz uma enxurrada de filmes de super-heróis e fantasia que não nos força a refletir temas mais densos.

Se reconhecer ignorante é sempre um caminho digno, pois é na compreensão que mora o próximo, este é o berço do amor. O burro se cerca de sua bolha, constrói sua realidade e não dialoga com o diferente. Sente ódio, que lhe dá uma motivação desesperada que beira ao fanatismo. Aí ele começa a encarar tudo que é contrário como inimigo. Animais racionais? Talvez nem tanto. Ser humano é um bicho complicado. Confundimos mudanças com evolução, mas nem tudo se transforma necessariamente para melhor. Dizem que em terra de cego, quem tem olho é rei. No ditado, o olho simboliza a sabedoria. Porém, a maioria vem mostrado que os cegos também podem ser reis, enquanto aqueles que podem ver, choram pelos retrocessos que a ignorância nos condena.


Ahas

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