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delírios conscientes

Ahas

É escritor. Mas se prostitui como redator.

A mentira que te contaram sobre a evolução

Qual a vantagem de ser um animal racional se agimos feitos primatas de iPhone? A evolução de Darwin tem um fator que pode colocar em dúvida a tese. E essa dúvida somos nós mesmos.


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“Ó humanos, embora nascidos para voar, por que caem a um sopro de vento?”, a indagação presente na obra de Dante Alighieri em A Divina Comédia nunca foi tão pertinente quanto nos dias atuais. De uns tempos para cá as coisas parecem estar regredindo. Pessoas acreditando em Terra Plana, outros que são antivacinas, teorias da conspiração sem fundamento algum, pessoas querendo se armar e diversos discursos retrógrados feito por autoridades políticas e sociais mostram o ser humano em sua forma mais primitiva do que nunca. Os avanços tecnológicos nos permitem ver isso com mais clareza na sociedade. Afinal, o que está acontecendo com as pessoas? Certamente esse lado mais primata não reapareceu, talvez ele sempre esteve em nós. Por que após cerca de 195 mil anos de existência na Terra os seres humanos ainda não conseguiram se entender?

A prepotência humana é realmente imensa e está arraigada em nossos genes. Desde que o mundo é mundo o homem sempre se colocou em uma posição de superioridade ao resto da natureza e tira proveito de tudo aquilo que lhe cerca. Tanto que nenhuma outra espécie no mundo interferiu tanto no ecossistema do planeta, e não de um jeito positivo. Essa faceta egocêntrica da espécie é um traço da evolução fundamental. O ego é conhecido em todos os campos de estudos como parte estrutural da espécie humana. Sob o ponto de vista da psicologia, o egoísmo designa a tendência (legítima) do indivíduo a defender-se, a manter-se, a desenvolver-se. Nesse sentido, é somente um aspecto do instinto de conservação. Como é impossível se desvencilhar dessas raízes, talvez o ego humano tenha criado uma percepção de evolução que não seja verdadeira.

Afinal, é no mínimo curioso chamar de inteligente e desenvolvida uma espécie que usa o plástico, que pode levar entre 250 a 400 anos para se decompor na natureza, como material de produtos descartáveis. Ou então uma sociedade que em pleno século 21 coloca duas pessoas para lutar dentro de um ringue e chame isso de esporte, como o MMA. Ou ainda a existência das touradas, uma completa covardia cruel e primata. Enfim, estamos cheios de contradições que põem em dúvida se temos uma verdadeira evolução ou se somos apenas primatas com ferramentas que perpetuam seus vícios.

É inegável que o ser humano é único em muitas virtudes. Porém os fatos mostram traços de extrema perversidade na natureza do Homem que também não são vistas em outras espécies da natureza. Características como escravidão-propriedade, lucro-vítima-dominação é uma exclusividade da raça humana. A história não tão distante mostra que isso já foi feito com etnias, crenças, mulheres e crianças vítimas dessas atrocidades. E não pense que atualmente as coisas são tão diferentes. Afinal, o que podemos dizer quanto às vacas, porcos, peixes, galinhas e toda a rede de consumo animal que consegue ainda ser mais cruel apenas pelo lucro e prazer dos envolvidos? Não seria a mesma coisa? Aliás, hábito que custa muito a toda a humanidade. Para se ter uma ideia, um relatório da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) indicou que ao menos 70% das enfermidades que apareceram após a década de 1940 têm como origem o consumo animal. Sem mencionar todas as pandemias, inclusive a atual tem essa origem. Quanto às crenças e valores sociais, há um fato ainda mais interessante: muitas pessoas acreditam que nos dias de hoje a vida de toda uma sociedade deva ser pautada por um único livro, escrito entre 1500 AEC e 450 AEC e entre 45 EC e 90 EC, estamos falando da Bíblia Sagrada.

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“O macaco é um animal demasiado simpático para que o homem descenda dele”, é uma citação de Nietzsche e ele tem bastante razão ao afirmar isso. Como é possível que o homem tenha a mesma descendência um animal tão amistoso? O que chamamos de ser humano hoje precisa ser observado com uma visão não-humana, se é que seja possível este paradoxo, para que de fato possamos analisar e entender esse emaranhado de órgãos e sentimentos que compõem essa curiosa espécie.

Antes de mergulhar na questão da evolução, algumas caraterísticas de nossa sociedade hoje indicam alguns sintomas que é o ponto chave do porquê se iniciou essa reflexão. São feridas que precisam ser tratadas, pois é um fato que o organismo que chamamos de sociedade, e por consequência o Homem, está doente. Chama a atenção um alerta feito pela OMS, que projeta a depressão, doença que hoje mais incapacita no mundo, deva se tornar a patologia mais comum do planeta, atingindo mais pessoas do que qualquer outro problema de saúde, como câncer e doenças cardíacas. Atualmente estima-se que a cada ano 800 mil pessoas têm como causa da morte o suicídio – representando a principal causa de óbito entre jovens de 15 e 29 anos. Uma sociedade que nos deixa espiritualmente doentes e depressivos não pode ser vista com normalidade.

Como sugere “A Origem das Espécies”, de Charles Darwin, a evolução se deu pela seleção natural, principalmente no que se diz respeito à adaptação ao ambiente. Esta base é usada até hoje como explicação de onde viemos. A nossa capacidade de racionalizar foi crucial para a evolução e nos coloca como o ser mais desenvolvido da natureza. Somos nós quem damos sentido a existência dos existentes.

É importante lembrar que o criacionismo, explicação que o ser humano foi criado em algum momento por uma divindade, foi por muito tempo (e ainda é hoje para muitas pessoas) uma forma de dar sentido à existência do ser humano na Terra. Afinal, dúvidas sobre quem somos, por que estamos aqui e para onde vamos nos perseguem desde sempre, com isso, praticamente todas as áreas de conhecimento humano formularam sua versão. Antes do desenvolvimento da ciência, o criacionismo era base não só dessas explicações, como também da moral e dos costumes. O exemplo mais expressivo é a Bíblia que traz os 10 mandamentos, os pecados capitais e todo o contexto que representa costumes de uma época, mostrando-se escravicionista, machista, homofóbica e com trechos que destoam do bom-senso, como apedrejar até a morte a mulher que não se casar virgem: "Se, porém, o fato for verídico e não se tiverem comprovado as marcas de virgindade das jovem, esta será conduzida ao limiar da casa paterna, e os habitantes de sua cidade a apedrejarão até que morra” - Deuteronômio, capitulo 22.

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O distanciamento da fé e razão veio na Europa Ocidental que começou a se desenvolver o racionalismo, com avanço da ciência e pautado em pesquisas empíricas, para trazer um contraponto e luz ao tema. Ainda hoje, com todo o avanço tecnológico, com a neurociência que consegue através de estudos de imagem ver o funcionamento do cérebro vivo e todo o aparato teórico que acumulamos nestes séculos de conhecimento, o cérebro ainda é uma caixa preta e as questões primordiais ainda não foram respondidas. Porém temos pistas interessantes de muitas coisas.

Falar sobre o processo civilizatório envolve muitas questões que passam desde a cognição social ao nosso entendimento de mundo. A questão é se, em algum momento desse processo, nossas vocações humanas tenham desviado nossa virtude do raciocínio aos nossos instintos mais obscuros. Muitos pensadores e cientistas põem em xeque a racionalidade, pois comprovadamente ela é influenciada por diversos fatores que estão ligados a sistemas de julgamento, emoções e até mesmo condições, portanto, nenhuma decisão é neutra. Uma boa teoria que mostra essa interferência dos sistemas de valores na razão é a Teoria dos Prospectos.

Dois prêmios Nobel de economia, Daniel Kahneman e Herbert Simon, quebraram o paradigma que dominou a teoria econômica por séculos promovendo a racionalidade limitada, que determina que um ser é incapaz de tomar uma decisão puramente lógica. Uma amostra dessa afirmação interessante pode ser obtida pela Teoria dos Jogos. Suponhamos que seu chefe dê ao seu parceiro de trabalho a quantia de 100 reais para que ele divida com você da maneira que ele quiser. Mas existe uma condição, cabe a você aceitar ou não a proposta, caso você recuse, nenhum dos dois ganham o dinheiro. Seu colega te propõe ficar com 99 reais e te dar 1 real. Você aceitaria a proposta? Muito provavelmente a sacanagem e ganância do seu colega iriam ser punidas com sua recusa, pois seu senso de justiça faria com que você opte por recusar a proposta. Mas, segundo a racionalidade completa, você deveria aceitar, pois 1 é maior que 0.

Isso nos mostra que nossas interpretações são baseadas em nossas emoções, por isso perdem a neutralidade da razão. Ao observar a fé das pessoas vemos como o ego e as emoções evidenciam estes fatos. Você não acha curioso que Deus tenha feito o homem a sua imagem e semelhança? Não seria muito mais provável que o homem tenha feito Deus a sua imagem e semelhança? Aliás, outro ponto interessante é a concepção de Deus como homem e Jesus Cristo como loiro do olho azul. Isso é parte de um processo que se chama de hegemonia cultural, que se caracteriza pelo tipo de dominação ideológica de uma classe social sobre outra, mas isso é assunto para outro momento. O que fica claro é que tudo é uma construção do Homem para o Homem.

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Portanto, esse traço de personalidade de nos colocar como centro do universo afetou inclusive nossa noção de nós mesmos. Pois se evoluir é se adaptar ao meio ambiente, nós nunca fizemos isso. O ser humano no planeta sempre explorou seu meio em seu favor, usando a dominação de tudo que for mais fraco. Aperfeiçoar esses traços não necessariamente é encontrar a evolução, pois assim como um vírus em um organismo, apenas ampliamos nossa resistência para continuar destruindo, até levar à morte.

O grande problema da humanidade é coexistir. Não houve evolução. Apenas decoramos nossas cavernas com aparatos tecnológicos, fantasias e ilusões, tendo fé que nosso raciocínio elevou o sentido da natureza. Ainda não saímos de nossas cavernas, elas somente são mais confortáveis e alienantes. Talvez sejamos apenas primatas que contam sobre um desenvolvimento que nunca existiu. Para evoluir é necessária uma mudança estrutural, por isso é complexa.

A razão deveria ser usada para a criação de uma cultura social que nos servisse como uma condução estruturada de um mundo em harmonia, que respeitasse cada ser vivo e lhe desse acesso à felicidade, nunca por meio de crenças, mas sim por evidências. O que vivemos hoje lembra bastante aquele filme O Poço, da Netflix, que traz a provocação social ao mostrar uma prisão onde os detentos são alimentados por uma plataforma descendente: os que estão nos níveis mais altos comem mais do que precisam enquanto os dos andares mais baixos ficam com as migalhas. A questão é, se todos se organizassem haveria sempre alimento para todo mundo, mas nossos instintos egocêntricos como ganância e gula transformam tudo em um caos pela sobrevivência. E assim caminhamos, afundados na ganância, egocentrismo e gula... sobrevivendo.

Nós somos os únicos prejudicados em desperdiçar o aperfeiçoamento da natureza para satisfazer nossos instintos mais baixos e para criar desculpas para isso. Esse mundo de dor e injustiça existe justamente por nos negarmos a enxergar isso. E se começamos essa reflexão com a comédia de Dante, nada mais justo que terminar com a tragédia de Shakespeare, “o inferno está vazio, todos os demônios estão aqui”.

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