As letras não cantadas de Cazuza

Amor, saudade e tristeza estão presentes nos versos ainda não musicados do artista


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"O tempo não para e a gente ainda passa correndo", analisou certa vez Cazuza. Para o músico, parecia que o tempo era ainda mais esmagador, já que ele sempre fez tudo de forma tão intensa, inclusive viver.

Assumidamente mimado, Cazuza queria muitas coisas ao mesmo tempo e acabou não tendo tempo suficiente para desfrutá-las. A morte em decorrência da aids, no entanto, não permitiu que ele fosse esquecido, mas o tornou ainda mais grandioso.

Além da música, Cazuza tinha uma grande paixão: a literatura. A junção dos seus dois amores acabou resultando em algumas das mais belas e inteligentes canções do rock nacional, ou melhor, da música brasileira como um todo, já que depois de deixar o Barão Vermelho, Cazuza flertou com muitos outros estilos.

Desde criança Cazuza vivia pelos cantos rabiscando algo em papéis. Assim surgiam, de uma hora para outra, as suas letras. Algumas delas se tornaram músicas em sua voz, e algumas outras acabaram não só cantadas, mas notáveis nas vozes de outros artistas, como Malandragem (Cássia Eller) e Poema (Ney Matogrosso).

Outras, entretanto, ainda nem receberam melodia. A quantidade de letras escritas por Cazuza, com o mesmo lirismo de sempre, e nunca musicadas seria suficiente para preencher vários discos, ou quem sabe um livro de poesia.

Em meio a tantos versos ainda não cantados, Cazuza fala sobre amor, saudade, obsessão e tristeza. Para os fãs do músico, é possível encontrar todas as suas letras, mesmo as não musicadas, no livro Preciso Dizer Que Te Amo, da Editora Globo. Algumas das minhas favoritas são “A Vizinha Reclama”, “Hoje”, “Mania de Cantar” e “Obsessão”, que podem ser lidas abaixo.

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A Vizinha Reclama

Quando eu te beijo

A vizinha reclama

A polícia me ganha

E o governo declara

Guerra Eu te beijo

E entendo a fome e a guerra

Eu te toco aflito

E entendo o animal na terra

Que verdade ele espera

Defronte nenhuma delas

Toda vez que eu te beijo

A vizinha reclama.

Hoje

Você na cidade

Em alguma esquina

À minha espera

Rodei todas as lanchonetes

Tendo ideias perversas

Me lembrei tanto

Golpes espertos

Senti cada vez mais perto

Encontros rápidos

Caetanos, robertos

Amigos curtiam

Bares repletos

De repente nenhum som.

Mania de Cantar

Falar com você

Um lance banal É igual

Abraçar

É igual chegar

É tão bom, é tão bom

Te contar da vida

Te dizer do sonho

É comer com fome

É beijar um homem

É tão bom... Tocar teu cabelo

Olhar no teu olho

Te beijar a boca devagar

Toda essa alegria

É minha mania

De cantar Cantar pra você

Um lance banal

É igual abraçar

É igual compor

É igual chegar

É tão bom, é tão bom!!!

Obsessão

O ar

Tua respiração

Me indica um suspiro maior

O claro

Óbvio que é chão Abscesso: obsessão

Quantas marcas feridas

Sangrando no meu ouvido

Eu não quero escutar

Mais nada


version 3/s/musica// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Bruno Inácio