O jornalismo literário como fuga do óbvio


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Não é necessário ser filósofo, antropólogo ou sociólogo para perceber que o homem se tornou um mero escravo do tempo. A vida moderna eliminou muitos dos seus momentos de lazer e descanso, e velhos hábitos foram perdidos. Para se adaptar ao seu novo e apressado público, o jornalismo também se modificou. Tudo ficou mais ágil, mas também mais clichê.

Com o lide – aquele primeiro parágrafo de uma notícia – o jornalista responde as questões “o quê”, “por quê”, “quando”, “onde”, “quem” e “como”. Dessa forma, o leitor – sempre correndo contra o relógio – obtém as informações básicas sobre o assunto rapidamente, o que poupa o seu precioso tempo e faz com que ele, muitas vezes, nem termine de ler o texto.

Dessa forma, o chamado jornalismo literário – com mais descrição e menos padrões – foi se perdendo e se afastando dos jornais diários. O tempo é curto, portanto os textos precisam ser breves sem, contudo, deixar de passar as informações primordiais. Este é um grande desafio, e muito conteúdo acaba sendo perdido.

O ambiente onde o fato ocorreu – às vezes tão importante no contexto – deixa de ser descrito. Os olhos dos entrevistados – ah, como eles falam – nem são citados. Os entrevistados falam apenas pelos trechos de suas falas, sempre entre aspas.

Ainda existem, é claro, veículos e cadernos onde há espaço para o jornalismo literário, mas naturalmente eles não são sucessos de público. O tempo é curto, e as descrições parecem simples enrolação.

O jornalismo literário, porém, não necessita de textos longos, mas sim de uma escrita que foge do óbvio. Em 2011, por exemplo, foi publicada uma matéria na revista Rolling Stone sobre o projeto Agridoce, da cantora Pitty e do guitarrista Martin.

Existem mil maneiras óbvias de começar um texto sobre isso, mas o jornalista Tiago Agostini foi além de todas elas. Utilizou elementos literários, a atenção que todo jornalista deve ter e fez surgir algo totalmente original. Deixo um pequeno trecho do texto escrito por ele, que prova o quanto tudo se torna mais interessante quando vai além dos padrões.

“Eram quase 6h da manhã quando Martin saiu para a varanda e plugou sua Gibson SG branca no amplificador. Assim que o relógio completou sua volta e começaram os sinos do convento ao lado, no alto da Serra da Cantareira, ele atacou o rff de ‘Hells Bells’, do AC/DC. Dentro da sala, Pitty assistia à cena aos risos.

Foi nesse clima bucólico que os dois passaram 22 dias no mês de setembro gravando a estreia do projeto Agridoce, em uma casa de dois andares alugada que encontraram pela internet”.


version 1/s/literatura// //Bruno Inácio