Um texto sobre a dificuldade do texto

Quando algo parece travar a escrita, é preciso abandoná-la ou exorcizar os seus demônios


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Saio da frente do computador, levanto e tomo um café. Dou uma olhada nos livros exibidos na estante e então retorno. A escrita, no entanto, ainda não flui. O assunto está em minha mente, assim como o meio para abordá-lo, mas as frases insistem em não sair. Vez ou outra, quando saem, parecem perdidas ou soam de modo estranho, irregular.

Os bloqueios vêm e vão, igual a felicidade. Às vezes duram cinco minutos, às vezes cinco meses. Para os que gostam de escrever, isso é terrível, mas para os que vivem da escrita – seja através da literatura ou do jornalismo – este é o maior pesadelo.

Quando o autor se depara com o bloqueio, ele consegue enxergar, em apenas um vilão, todos os seus medos, desde o palhaço temido durante a infância ao amargo fracasso profissional temido durante a vida adulta.

É uma legião de demônios que parece rodar em volta da cabeça, até que o autor consegue exorcizá-los, mesmo que temporariamente, ou desiste, de uma vez por todas, de escrever. A segunda saída, na maioria das vezes, é a mais fácil. Deixar de quebrar a cabeça por causa de parágrafos ou estrofes.

O abandono da escrita, porém, é a saída dos covardes. Todos os que já se aventuraram neste mundo sabem que aquela história de inspiração é mero faz-de-conta. Os versos do Vinícius não apareciam prontos em sua cabeça durante a madrugada. Eram motivados por aquilo que o poeta sentia, é claro, mas o seu conhecimento e determinação em continuar escrevendo mesmo depois de tantos bloqueios foram fundamentais para o seu brilhantismo.

E James Joyce? Quantos bloqueios deve ter tido enquanto escrevia as mais de mil páginas de Ulysses? Quantas vezes deve ter pensado em desistir daquele que se tornou um dos livros mais aclamados entre os especialistas no assunto?

Naturalmente, o que a grande maioria de nós escreve não se compara aos imortais Vinícius e Joyce. Porém, essas palavras precisam ser escritas, seja em prosa ou em poesia. Às vezes são besteiras, e outras um verdadeiro lixo literário. Mas é nosso lixo, nossas palavras.

Os bloqueios são reais. Talvez mais do que a inspiração. No entanto, vencê-los é o que separa o desejo da vocação, o sonho da realidade e o escrever do morrer com as palavras não ditas.

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version 1/s/literatura// @destaque, @obvious //Bruno Inácio