Um dia me disseram que as nuvens não eram de algodão

Quando se entende que brinquedo quebrado não é um problema real, e que seus pais não são eternos, o mundo se torna assustadoramente cruel


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E então sem deixar carta de despedida ou testamento, a inocência morre. Às vezes aos 12 anos de idade, às vezes nos primeiros 365 dias de uma vida. Vai sem razão aparente, e leva parte de uma felicidade que jamais retorna. Leva embora o sonho de ser astronauta e o desejo de que a mãe viva para sempre. Traz à tona, sem aviso prévio, a verdade de que nem todas as pessoas são iguais, e que mundo nenhum é perfeito.

Adão foi banido de um talvez metafórico paraíso depois de ter comido o fruto da ciência. Passou a enxergar a vida como ela é, e então tudo mudou. No cinema, Edward Mãos de Tesoura – uma das “aberrações” mais adoradas de Tim Burton – transbordava pureza e bondade, o que não o impediu de ser injustiçado, fortalecendo a ideia de Rousseau de que todo homem nasce bom, mas a sociedade o corrompe.

O adorável personagem interpretado por Johnny Depp não chegou a se tornar mau, mas percebeu que o castelo onde morava anteriormente – em meio à solidão, à escuridão e à arquitetura assustadora – era muito mais seguro do que viver em casinhas coloridas, cercado por vizinhos fofoqueiros e curiosos.

A vida de Edward certamente nunca mais foi a mesma. Viu a sua pureza morrer, mesmo que tardiamente, e entendeu que quando isso ocorre, tudo se transforma, se metamorfoseia. Continuou a fazer as suas esculturas, e talvez como fuga do mundo que conheceu no tempo que passou junto à “sua família”.

A arte, para muitos, é a válvula de escape depois que se descobre que as nuvens não são feitas de algodão, que não era Papai Noel que dava os presentes e que o velho do saco (na verdade um sofrido morador de rua) não dá a mínima se você comeu ou não a quantidade de comida que sua mãe acha adequada.

E enfrentar o mundo depois que a inocência se vai não é tarefa fácil. Somente com saídas regulares da criança interior, uma dose de autoilusão e uma fechada de olhos e ouvidos para não carregar consigo todo o sofrimento do mundo.

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