Você sabe com quem está falando?

Situações como a do juiz João Carlos de Souza Correa refletem abuso de poder abordado em obra do antropólogo Roberto DaMatta


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O antropólogo Roberto DaMatta, em sua obra-prima Carnavais, Malandros e Heróis, foi muito feliz ao abordar algo enraizado na sociedade brasileira: a batida frase “Você sabem com quem está falando?”. Através desse recurso, autoridades se livram de problemas, se safam de escândalos, burlam as leis e até cortam filas. É o jeito malandro, tão tipicamente brasileiro quanto o carnaval e o samba.

A diferença é que nesse contexto a malandragem não é usada por pivetes ou por líderes de facções criminosas. Ou seja, não envolve um bandido comum. É um artifício de pessoas estudadas e ocupantes de cargos relevantes. São pessoas que o poder subiu à cabeça, e por isso se consideram acima de qualquer julgamento ou punição. São políticos, juízes, policiais, jornalistas, artistas, entre outros. São pessoas que reagem a uma ameaça com a frase pronta “você sabe com quem está falando?”. Como se isso importasse. Se a lei ou regulamento foi burlado, a punição deve existir.

Teoricamente, ninguém deveria estar acima da lei. Mas está. E não são poucas pessoas. Exemplo recente é o do juiz João Carlos de Souza Correa, parado numa blitz, sem documento do carro ou habilitação. Ele deveria ser imediatamente punido, como eu e você seríamos. Mas não foi. Não poderia permitir, como juiz, que uma “simples” agente de trânsito o punisse. Na sua cabeça, ele está acima disso.

A situação piorou porque a agente, Luciana Silva Tamburini teve a “audácia” de dizer a João Carlos de Souza Correa que ele podia ser juiz, mas não era Deus. Certamente, Correa recebeu isso como uma blasfêmia. Claro que ele é Deus. E para provar a sua onipotência deu voz de prisão à agente, que cometeu o pecado de cumprir a sua função. Como a Justiça Brasileira é uma grande piada, Luciana ainda foi condenada pelo desembargador José Carlos Paes a pagar R$ 5 mil ao juiz infrator. Quando o assunto foi parar na mídia, pessoas revoltas com tamanha injustiça resolveram fazer uma vaquinha para que a agente pagasse a indenização. Hoje o valor arrecadado já ultrapassou R$ 13 mil, mais do que suficiente para o pagamento. O restante, segundo Luciana, será destinado a uma instituição de caridade.

A questão, no entanto, não se trata de dinheiro. Vai muito além. Outros autores já discorreram sobre o tema depois que Roberto DaMatta o fez. O filósofo Mário Serio Cortella e o jornalista Leonardo Sakamoto são apenas alguns deles. Porém, mesmo assim a situação não muda. O caso do juiz João Carlos de Souza Correa chegou à mídia e teve repercussão. Mas há muitas histórias não contadas, muitas pessoas não ouvidas. Todos os dias inocentes são prejudicados por pessoas poderosas sempre acompanhadas pelas palavras “Você sabe com quem está falando?”. Até quando?


version 3/s/recortes// @destaque, @obvious //Bruno Inácio