Sobre os fragmentos

Pequenos objetos podem ser capazes de mostrar mais de nós do que os diplomas pendurados pela parede


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Aqueles pequenos objetos colocados no local mais íntimo do universo de cada um – seja no quarto ou numa casa de campo – assumem uma responsabilidade muito maior da que possuíam quando foram criados. Livros, peças decorativas, obras de arte e bugigangas deixam de ser mercadorias e se tornam fragmentos de cada indivíduo. Juntos eles formam algo grandioso: um ser.

Isso porque descrever as aparências físicas e dizer a profissão e a idade de uma pessoa é uma forma bastante limitada de responder quem ela realmente é. Unidos, os pequenos fragmentos conseguem responder essa questão de forma muito mais verdadeira.

Eles são capazes de entregar tudo aquilo que somos, e mesmo o que fomos um dia. A guitarra empoeirada em um canto, em meio a CDs e revistas de rock, lembra que ali já existiu um sonho de tocar em uma banda famosa; a quantidade de itens feitos à mão recorda que o artesanato tem muito mais de você do que a faculdade de Engenharia, e os brinquedos estão ali apenas para lembrar, dia após dia, que a sua vida já foi tão mais simples.

As cartas de ex-namoradas, que por algum motivo ainda não foram para o lixo, trazem boas recordações, ou apenas servem como alimento para o ego; o livro de Freud remonta um período em que prometeu estudar psicologia, e a imagem de Cristo ou Buda diz que algum dia você já teve fé. Ou que talvez ainda a tenha.

E num canto qualquer, há anotações, poemas, contos e ensaios. Há anos esses papéis não são tocados. São considerados um verdadeiro lixo, mas ainda assim estão ali, cumprindo o seu papel de fragmento.

Longe dos olhos fica a pequena caixa de recordações. O lugar onde está é estratégico. Nem muito perto, para evitar que sinta que os melhores dias já se foram, nem muito longe, para que possa provar a si mesmo, quando necessário, que a sua vida valeu a pena.

E assim se mantêm os fragmentos, como pequenas peças de um quebra-cabeça; palavras impressas em um livro; notas em um concerto e sonhos em uma vida. Sem esses pedacinhos, no entanto, o resultado final - a composição de um ser - jamais seria o mesmo, afinal, somos formados de pedacinhos.


version 1/s/recortes// //Bruno Inácio