Também conto piada e falo palavrão

Quando o amor pela arte nos torna algo muito mais complexo do que aquilo que realmente somos


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Sim, eu sei o que é semiótica, posso discutir algumas ideias freudianas e consigo classificar as bandas de rock por subgêneros. Tenho centenas de livros, vejo filmes pouco conhecidos e escrevo literatura. Mas a visão intelectualizada passada por boa parte dos amantes de arte é limitadora. Não somos mais inteligentes, brilhantes ou interessantes que ninguém. Apenas voltamos à atenção a algo que gostamos e tiramos proveito disso.

O fato de gostarmos de Fernando Pessoa ou de Rolling Stones não quer dizer, necessariamente, que nos limitamos a falar sobre arte, descobertas científicas ou questões existencialistas o tempo todo. Eu também conto piada, falo palavrão, exagero no álcool e danço ridiculamente em público. Também posso rir das coisas mais absurdas, me divertir com o Shrek e xingar o juiz num jogo de futebol. Posso cantar aquela música que todo mundo sabe que é ruim, mas que não desgruda da cabeça, e preferir, mesmo que naquele momento, ler o horóscopo ao invés de Nietzsche.

E eu posso deixar de ir à livraria porque fiquei com fome e quis gastar todo o dinheiro me empanturrando no Mcdonalds. E posso incluir, sim, a Carminha na minha lista de vilões favoritos, desde que fique atrás de Darth Vader, Hannibal Lecter e alguns outros.

Também tenho o direito de gritar que odeio política, mesmo sabendo que a funcionalidade de um estado depende dela. E posso falar besteira, e não apenas nos momentos em que comentar sobre as obras de Henry Miller ou Marquês de Sade. Tenho o direito de pular na piscina de roupa e de ficar competitivo ao jogar videogame, mesmo que seja algo irracional.

À noite, quando fecho os olhos, posso rezar ou agradecer. Não preciso ser ateu porque boa parte dos pensadores é. Preciso apenas ser eu mesmo. E não, eu não sou movido à poesia, filme europeu e rock dos anos 70 o tempo todo. Sou bem mais simples que isso.

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version 1/s/recortes// @destaque, @obvious //Bruno Inácio