Onde queres o sim e o não, talvez

As dificuldades em saber quem é e o que quer em um mundo cada vez mais desencontrado


Caetano.jpg

O desejo pelo brinquedo novo deu lugar ao desejo pelo diploma, que por sua vez deu lugar à busca pelo emprego dos sonhos, com estabilidade e boa remuneração. Em algumas noites frias, vem o desejo por uma companhia, enquanto em outras, a vontade de solidão. A inquietude vivenciada todos os dias, de todas as formas possíveis, aponta uma geração que ainda não sabe muito bem o que quer, ou talvez que tenha o problema de simplesmente querer tudo.

Num canto, há o grupo que ainda não se encontrou. Os poetas que não aprenderam a amar, como escreveu Cazuza e cantou Cássia Eller. São os que vivenciam o amor todos os dias, mas ainda não entenderam muito bem como senti-lo.

Na outra ponta, existem os eternos insatisfeitos. Aqueles que querem tudo, menos o que eles têm. Parecem que fazem de O Quereres, de Caetano Veloso, seu manual da vida. Onde querem o sim e o não, encontram o talvez; onde querem ternura, encontram o tesão; onde querem o livre, encontram decassílabo; onde querem bandido, encontram herói, e onde querem um canto, o mundo inteiro.

No começo é considerado coisa de jovem. Aquela fase em que o sentimento de insegurança caminha lado a lado com a insatisfação. Mas então os dias viram semanas, as semanas viram meses e os meses viram anos. E um belo dia você acorda e não entende muito bem quem é e o que quer. Na verdade, nada há de tão errado em mudar frequentemente seus desejos e projetos, exceto o fato de ver o que almeja sempre distante, sempre inalcançável. Uma verdadeira utopia.

E a pressão se faz maior a cada dia. "Quando vai arrumar um emprego?", "Quanto você ganha?", "Já está na idade de se casar, e nem namorada tem", "Já estão casados há cinco anos, e ainda não tiveram filho". E assim, por medo de se decepcionar ou decepcionar alguém, as pessoas assumem um papel - pessoal e profissional - que talvez não lhe cabe. É só para não ficar sem uma personalidade, sem uma função...

E mais tarde você percebe que não se tornou quem gostaria de ser, mas sim quem lhe convinha. E assim a geração que não sabe muito bem o que quer toma conta do mundo. Um mundo que eles não entendem muito bem para o que serve e nem como funciona, afinal, ainda estão tentando descobrir o que vão ser quando crescer.


version 3/s/sociedade// @destaque, @obvious //Bruno Inácio