O curta sobre o amor na concepção de Sarah Kane

Trecho de peça da dramaturga inglesa reflete a densidade de se estar em um relacionamento


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Não sou o maior fã de aforismos. Não gosto de frases e trechos soltos, fora do contexto e fora de toda uma história, que engloba visões, sentimentos e posicionamentos. No entanto, dentro da obra de Sarah Kane - que se não fosse por Shakespeare, seria minha dramaturga inglesa favorita - há uma ressalva.

Na peça Crave, de 1998, quatro personagens ocupam o palco, dizendo frases que ora beiram o lirismo e ora beiram a loucura. No início, parecem frases soltas, dramas pessoais e insanidades. Contudo, à medida que a peça avança, é possível perceber que há uma relação entre todos os personagens, e que todas as frases ditas - por mais malucas que soem - têm sentido pleno.

O ponto alto da peça é o momento em que as frases simbolizam tudo aquilo que representa um relacionamento amoroso, das rotinas às preocupações; do romantismo aos desentendimentos; dos costumes às intimidades; do amor à raiva.

Todos esses sentimentos foram muito bem retratados por um curta-metragem inglês, intitulado Reflections of a Skyline, que foi gravado em um telhado de Londres, durante apenas um dia. Dirigido por Michael Tamman e Richard Jakes, o curta traz um casal de atores, Christopher Dunlop e Fiona Pearce, interpretando o trecho da peça.

Embora as falas se complementem, em nenhum momento os dois atores contracenam, o que torna o vídeo ainda mais interessante, além de fazer com que suas emoções transpareçam com ainda mais nitidez, sobretudo, pelo olhar.

O que Sarah Kane fez - e os atores interpretaram brilhantemente - foi conceituar o que é amor, sentimento tão difícil e ao mesmo tempo tão simples de entender.

Estar com quem se ama é ter a liberdade para brincar de esconde-esconde, e ao mesmo tempo rir da sua paranoia; é querer falar sobre o programa que você viu na noite anterior, mas também ouvir sobre o dia dele ou dela; é dizer o quanto você adora os seus olhos, mas também lhe contar as suas imperfeições e seus erros; é não precisar rir de suas piadas sem graça; mas ao mesmo tempo querer ouvi-las; é contar o seu pior, mas tentar dar o seu melhor.


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