A verdade como conceito mutável

O que acontece quando vencemos o egoísmo e enxergamos com outros olhos?


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Nas narrativas, sejam elas no teatro, no cinema ou na literatura, sempre gostei de finais em aberto, aquele tipo de encerramento que te faz pensar e repensar, até que encontra a sua forma de enxergar e de interpretar o que pode ter ocorrido.

Gosto do que está nas entrelinhas, do que só os olhares atentos e ouvidos treinados conseguem perceber. Não gosto de verdades absolutas, de finais definitivos, de tudo mastigado, sem que seja necessário colocar a nossa interpretação e a nossa visão de mundo.

Os finais em aberto são menos opressores. Não dizem que um ponto de vista é certo e todos os demais errados; não pressiona e não limita. É um verdadeiro brainstorming.

Permite que amigos discordem e que você mesmo se contradiga. Pode pensar, por exemplo, que Capitu realmente traiu Bentinho em Dom Casmurro, e minutos depois mudar de ideia. E não importa. As duas verdades existem.

Essa flexibilidade em narrativas deveria também ser aplicada à vida real. A verdade é um dos conceitos mais mutáveis da humanidade, já que ela sempre depende de um ponto de vista. Mas para entender isso é necessário possuir empatia, a capacidade de analisar algo sob um ponto de vista diferente do seu. Não é tarefa fácil, porque mais do que nunca nós somos exemplos de egoísmo.

Estamos focados apenas em nossa história, nossa felicidade, nossos valores e nossa formação. E assim construímos nossas verdades, pautadas exclusivamente pela nossa visão. Somente quando conseguimos nos libertar do egocentrismo, podemos nos livrar de preconceitos, de rótulos e até de sentimentos negativos, como a mágoa e a raiva.

Enxergar com os olhos de outra pessoa é um ato de coragem e, sobretudo, de maturidade. Na série How I Met Your Mother, o personagem central, Ted, conseguiu ver a partir de um ponto de vista totalmente diferente do seu uma situação bastante delicada.

Após ter sido abandonado no altar pela noiva, que voltou para o ex-marido, Ted estava disposto a confrontá-la e despejar toda a raiva que sentia desde que ela o abandonou. Porém, quando chegou ao seu apartamento, se deparou com ela, o ex-marido e a filha do casal compartilhando um momento de felicidade. Entendeu, imediatamente, que de nada adiantaria gastar sua energia com tanta raiva.

Ted percebeu, como ele mesmo disse, que aquele era sim o final feliz de uma história de amor. Só não era a sua. Foi naquele momento que percebeu que o mundo não gira em torno dele. Cada pessoa tem sua história, repleta de sonhos, desilusões, traumas e felicidades. E, no fim das contas, aquela história é tão importante quanto a sua. A única coisa que muda é o ponto de vista.


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