Diálogos mudos

Quando olhares, carinhos e sorrisos se fazem necessários para dizer algo mais profundo que qualquer palavra


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Logo no início do livro “O Inventário das Coisas Ausentes”, de Carola Saavedra, a personagem Nina diz ao narrador da história que apenas o convidou para ir ao cinema porque está apaixonada por ele. Falou que considera ir ao cinema algo muito pessoal. Ele, naturalmente, estranhou. Nina, no entanto, explicou: “você fica ali, do lado da pessoa em silêncio. É como se estivessem dormindo e sonhando o mesmo sonho”.

O que Nina narra, com toda a sua sensibilidade, é um momento de diálogo mudo, que por sinal é algo totalmente diferente do silêncio, diga-se de passagem. Diálogos mudos são aqueles momentos em que tudo é dito, e nada é falado. Não significa falta de assunto ou de química. Muito pelo contrário.

Diálogo mudo se trata de uma conversa não verbal, mas muitas vezes mais profunda e sincera. São os olhares que se encontram; o sorriso tímido que você tenta segurar, mas não consegue; o abraço demorado ao invés de um aperto de mão; a conexão instantânea de pensamentos e as mãos dadas pela primeira vez.

É quando aquilo que você precisar dizer é tão profundo, que não há palavra capaz disso. É a namorada com a cabeça apoiada no peito do namorado, ouvindo as batidas de seu coração; é o pai que faz um cafuné na cabeça da filha, ao notar que em breve ela deixará de ser criança; é o neto que percebe que aquele provavelmente será o último Natal com a presença de seu avô.

Diálogos mudos existem tanto em momentos felizes quanto em momentos tristes, mas sempre com a mesma intensidade. É a ausência de palavras após você notar que aquela pessoa realmente é o amor da sua vida; mas também é a ausência de palavras num abraço de conforto após a morte de um ente querido.

Mas o que importa, na verdade, é que este diálogo mudo sempre será compreendido, pois ele só existe entre duas almas em perfeita sintonia. Não é um momento de mal-entendido, mas sim uma troca de sentimentos e sensações sem que uma palavra sequer seja dita.


version 2/s/sociedade// @obvious //Bruno Inácio