Talvez uma história de amor: uma breve análise

Livro do francês Martin Page fala sobre ausência, abandono, reconquista e reencontros


talvez-uma-historia-de-amor.jpg Adaptação teatral de Rafael Gomes para o livro "Talvez uma História de Amor"

Virgile, um publicitário desajustado e misantropo, retorna à sua casa e ouve um recado nada agradável na secretária eletrônica: “Aqui é Clara. Sinto muito, mas prefiro parar por aqui. Vou me separar de você, Virgile. Não quero mais”.

A separação é, para qualquer pessoa, um processo longo e doloroso. Deixar de lado uma história repleta de momentos especiais, aventuras, risadas e demonstrações de amor nunca é fácil. Acostumar-se com a ausência é enfrentar uma dor quase física, que insiste em não ir embora.

Para Virgile, no entanto, isso parece ainda mais difícil de lidar. Isso porque ele simplesmente não se lembra quem é Clara. E a tentativa de recordar algo sobre a sua até então namorada é o ponto de partida de “Talvez uma história de amor”, livro escrito pelo francês Martin Page, também autor de “Como me tornei estúpido” e “A gente se acostuma com o fim do mundo”.

Ao longo da história de 160 páginas, o personagem central tenta recuperar qualquer informação sobre Clara, para tentar entender melhor aquele relacionamento e porque ele terminou. No início, pensou que se tratava apenas de uma brincadeira de seus amigos, mas à medida que as suas “investigações” avançam, as evidências o levam a acreditar que Clara realmente existe, e que foi, de fato, sua namorada.

Sua primeira reação foi acreditar que estava com uma amnésia irreversível, e que lhe restavam poucos dias de vida. Porém, após consultar um médico e entender que não estava com nenhum problema de saúde, Virgile toma uma decisão. Ao invés de simplesmente tentar se lembrar de Clara, ele busca reconquistá-la. Num jogo de gato e rato brilhantemente construído por Martin Page, Virgile parece cada vez mais próximo de Clara, embora muitas das pistas não sejam tão esclarecedoras como ele gostaria que fossem.

Apesar de suas manias malucas, como só assistir filmes em preto e branco e só ouvir música em discos de vinil, Virgile se mostra extremamente parecido com cada um de nós. É só mais um coração partido tentando encarar o que sente; só um cara tentando esquecer alguém que parece inesquecível e reconquistar o que parece inconquistável.

Seja por uma questão de ego ou talvez pelo fato de só perceber o que tinha depois de perder, Virgile volta a se sentir vivo durante a sua busca por Clara. Esta era uma condição que não vivenciava mesmo durante os seus mais intensos relacionamentos.

Clara, então, se torna a responsável por provocar em Virgile aquilo que o amor sempre provoca na gente: a fuga da rotina, a vontade de viver, os sorrisos bobos e a fé de que ainda resta algo de bom na humanidade. Sabe que esse sentimento sempre vem acompanhado por um medo enorme de ter o coração partido novamente, mas não se importa. Afinal, ter medo do amor é ter medo da vida.


version 1/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Bruno Inácio