Alucinação: a obra-prima de Belchior

Lançado em 1976, disco reúne algumas das mais importantes composições do músico


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Filho de músicos, sobrinho de poetas bastante boêmios e estudante de Filosofia e Humanidades, Belchior parecia já pré-destinado à arte. Na dúvida entre virar músico ou poeta, acabou se tornando os dois. Deixou a faculdade de Medicina e arriscou a carreira como cantor. O resultado não poderia ter sido melhor. Virou um dos maiores nomes da MPB e se tornou um dos primeiros artistas do Nordeste a fazer sucesso em todo o país.

Suas canções trazem características tão peculiares quanto o comportamento do próprio artista. As letras, poéticas e estruturadas, retratam a voz de uma geração; às vezes são cantadas, mas de vez em quando saem com tanta naturalidade, que mais parece um diálogo. Vários são os ícones dos anos 60 e 70 citados em suas letras, como James Dean, Bob Dylan e, é claro, os Beatles, além de escritores como Fernando Pessoa e Edgar Allan Poe. Construiu uma discografia com altos e baixos, como a maior parte dos artistas, e imortalizou diversos clássicos da música brasileira.

Sua obra-prima, para muitos dos seus admiradores, é Alucinação, quarto disco do compositor cearense, lançado em 1976. Composto por dez faixas, o álbum reúne músicos extremamente competentes e tem alguns dos principais hits do cantor, como "Apenas um rapaz latino-americano", que abre o disco.

Em seguida vem "Velha roupa colorida", que fala sobre saudade e mudanças. Uma das interpretações possíveis, devido a versos como "Uma nova mudança em breve vai acontecer/E o que há algum tempo era jovem novo/Hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer" e "Nunca mais você saiu à rua em grupo reunido/O dedo em V, cabelo ao vento, amor e flor, quero cartaz", é que é uma canção-protesto contra a ditadura militar no Brasil.

Logo depois, vem a clássica "Como os nossos pais", que também ficou bastante famosa na voz da rainha Elis Regina. Fechando o lado A do LP, aparecem "Sujeito de sorte", aquela da frase "Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro", e a anarquista "Como o diabo gosta".

O lado B começa muito bem com a faixa-título do disco, que mais parece obra de algum nome da poesia marginal, como Leminski ou Chacal. Em seguida vêm a bela "Não leve flores", "A Palo Seco", que foi regravada por Los Hermanos e por Oswaldo Montenegro; a linda "Fotografia 3x4" e "Antes do Fim", que deixa mensagens que jamais deveriam ser esquecidas, e não apenas pelos fãs de Belchior.

Claro que a discografia do artista estava apenas em seu começo, mas esse foi, sem dúvida, um dos principais marcos de sua carreira e uma das mais importantes contribuições para a MPB.


version 2/s/musica// @obvious, @obvioushp //Bruno Inácio