Amor em tempos de desamor

Sobre os reflexos causados pela falta de empatia


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No sensível filme francês “O fabuloso destino de Amélie Poulain” (se ainda não assistiu, assista!), uma frase soa como uma dolorosa verdade: são tempos difíceis para os sonhadores.

E esses são dias complicados principalmente porque estamos divididos. Não, não estou falando sobre o processo de impeachment que vem ocorrendo no Brasil. Essa divisão é muito mais antiga e muito mais abrangente.

Falo, sobretudo, da falta de empatia e de racionalidade. Falo do individualismo, cada vez mais presente no ser humano, que hoje fecha seus olhos diante das crianças nas ruas, da fome e da solidão. Falo dos engravatados, em seus carros importados e suas salas com ar-condicionado, pregando a meritocracia após uma vida inteira de benefícios.

Falo das pessoas que expressam o seu ódio sem nem mesmo entender o que está acontecendo. Informam-se apenas pelas manchetes, apenas por um veículo de comunicação e conhecem apenas um lado da história. Ainda assim ficam felizes ao ver que o policial matou mais um ou que a população fez justiça com as próprias mãos.

A mídia, por sua vez, faz questão de alimentar esse ciclo de ódio. Convoca a população a se revoltar, mas não explica direito quais são os motivos para que ela se revolte. Há quem percebe que tem algo errado nessa história, mas também há quem apenas absorve a informação, como um robô programado para acreditar em tudo que vê, em tudo que lê, em tudo que ouve...

O comportamento agressivo é tão espaçoso que não deixa uma lacuna sequer para o diálogo. Não há como argumentar com quem espalha o ódio. Se você discordar de sua opinião será duramente agredido. Em um dia de “sorte”, a agressão pode ser apenas verbal. Nos outros dias, certamente virá acompanhada da agressão física.

E há quem feche os olhos para tamanhos absurdos. Existe quem atribua isso a um falso vitimismo, e há quem diga que o mundo está ficando chato. Claro! Para quem é egoísta e sempre esteve no poder, desprezando minorias, vê-las ganhando força pode ser um pouco assustador.

Até mesmo o amor parece ter se tornado egoísta. Quando casais se separam (ok, eu entendo que o motivo pode ser doloroso), ao invés de cultivarem uma boa lembrança ou simplesmente deixarem para trás, iniciam um jogo de vingança em que o vencedor é aquele que mais humilhar e expor o ex-parceiro.

E não se trata somente do amor romântico. Também tem faltado aquele amor em que uma pessoa olha para a outra e vê ali um ser humano, repleto de complexidades, histórias, formação cultural e valores. Hoje há má vontade para entender as razões e ideologias. As pessoas consideram mais fácil apenas ofender quem não pensa como elas. E assim, dia a após dia, o desamor nos distancia, nos torna frios e fecha os nossos olhos para tantos problemas.

Pode parecer uma utopia ou até mesmo uma infantilidade, mas o amor realmente pode salvar o mundo. Trata-se de ações que devem ser praticadas todos os dias, abrangendo respeito, empatia, abertura ao diálogo e solidariedade. Boas ações e bons sentimentos (assim como essa onda de ódio) são contagiosos. Só espero que mais gente esteja disposta a ser o cais dos aflitos, e não mais caos.


version 5/s/sociedade// @obvious, @obvioushp //Bruno Inácio