Os dias cinzentos

O que acontece quando todas as dores adiadas vêm à tona


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Viver está pesado... Tudo está muito instantâneo e caminha para a superficialidade. As relações são líquidas, os amores são líquidos, o mundo é líquido, como diria o sociólogo Zygmunt Bauman, uma das mentes que parece melhor ter compreendido este momento da humanidade.

A pressão do cotidiano nos distancia, nos torna indiferentes e faz de amigos, verdadeiros desconhecidos. É muita informação e pouco tempo para digerir e sentir. Para chegar ao receptor, a mensagem muitas vezes precisa ser breve, imediata, sem metáforas ou entrelinhas.

Adiamos as decisões, os sentimentos e as mudanças necessárias. Até que chega um momento que a alma não aguenta. Falo daqueles dias cinzentos, em que a sensação de “tanto faz” domina tudo ao redor.

A esperança de dias melhores some, o sentimento de culpa vem à tona, e a vontade de ter feito tudo diferente reaparece. Para fugir disso, cada um recorre à droga que lhe convém: o álcool, os entorpecentes, a TV e o sexo.

É mais fácil do que encarar a verdade. É mais fácil do que ter que olhar dentro de certos olhos ou até mesmo no espelho. Mais do que nunca, criamos aversão a sentimentos, e passamos a evitá-los a todo custo.

É como se, emocionalmente, ainda fôssemos adolescentes, ou talvez até crianças. Falta autoconhecimento e estamos sendo condicionados a fugir de um problema ao invés de resolvê-lo. Acreditamos que ignorando, ele vai embora. Funcionava com o colega irritante da pré-escola, mas não funciona com dores e frustrações.

Os problemas sempre voltam - e como um verdadeiro monstro de algum filme B de terror -, estão cada vez mais fortes. Por isso há tantos dias cinzentos. Por isso há tanta morte onde deveria existir vida.

Há dias em que copos ficam meio vazios e que sonhos soam como utopias. Todos têm direito a dias assim, afinal, a felicidade exigida de forma contínua também é uma ditadura.

A complicação vem quando todos os dias deixam de ter cores exclusivamente porque a covardia nos impede de pensar, de sentir e de agir.

Viramos acumuladores de dores e arrependimentos, e não entendemos o que fazer para eles irem embora de vez. Tornamo-nos a geração que não sabe lidar com sentimentos. Viramos verdadeiros escravos da solidão, da angústia e do remorso.


version 4/s/sociedade// @obvious //Bruno Inácio
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