Tempos de ódio

Os perigos de permitir que o fanatismo cresça a ponto de as pessoas comemorarem tragédias


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Muitas vezes já deparei com a seguinte frase na internet: éramos todos humanos até que a raça nos desligou, a religião nos separou, a política nos dividiu e o dinheiro nos classificou. Embora não saiba com precisão quem é o seu autor, já que a vi ser atribuída a diversas pessoas diferentes, esta sentença retrata muito bem os dias atuais.

Em todas as partes - do universo off-line ao on-line - nota-se uma espécie de guerra entre diversos grupos. Essas desavenças já ultrapassaram há tempos o limite entre discussões saudáveis e a intolerância. O resultado disso é o desrespeito e o ódio gratuito.

Somente nos últimos dias, muitos exemplos disso vieram à tona. No dia 11 de setembro completaram-se 15 anos desde que ocorreu uma série de ataques aos Estados Unidos, inclusive às Torres Gêmeas.

Lembro que em 2001, embora eu ainda fosse uma criança, acompanhei tudo pela TV e já naquela época fiquei apavorado ao ver tanta gente comemorando aqueles ataques, devido às políticas nada pacíficas dos Estados Unidos.

Passados 15 anos, a situação não mudou tanto. No dia 11 de setembro deste ano, apareceu muita gente com críticas bem fundamentadas, lembrando das atrocidades cometidas pelo governo egocêntrico dos Estados Unidos em diversos países. Essas pessoas, contudo, também manifestaram solidariedade às vítimas do dia 11 de setembro, pois sabem que uma tragédia não anula a outra.

Por outro lado, também pude ver outro grupo de pessoas dizendo que “os estadunidenses mereceram”. É evidente que o governo norte-americano tem políticas nada humanitárias, mas lembro aqui que embora os ataques simbolicamente tenham atingido o Estado, quem morreu foram pessoas inocentes, que estavam trabalhando e cuidando de suas vidas. Não, ninguém mereceu aquilo.

Ator

Na última semana, também tivemos na morte do ator Domingos Montagner, protagonista da novela Velho Chico, da Rede Globo, uma situação parecida. Em todos os lugares só se falava disso e o fato gerou uma forte onda de tristeza, mas também de revolta e uma série de boatos e especulações.

Na internet, rapidamente se espalharam mensagens dizendo que a morte é só mais uma entre tantas outras que ocorrem diariamente, sem receber o status de tragédia. É possível compreender o que a mensagem busca passar: a tragédia de alguns se sobrepõe à de outros, especialmente por consequência da cobertura midiática a respeito dos acontecimentos.

Esta é uma crítica muito bem colocada. O problema, no entanto, ocorre quando a morte do artista global é transformada em discurso de ódio. Muitos diminuíram o fato de tal maneira, que o colocaram como irrelevante. Não, não é irrelevante. Da mesma forma, as mortes não televisionadas também não são irrelevantes, embora alguns as tratem dessa forma. Olho por olho e o mundo terminará cego, como disse Ghandi.

Ódio disfarçado de opinião

Já nesta semana, a situação em evidência na internet foi o relato de uma adolescente que estava “surfando” em um trem e se machucou ao pular do transporte. Como resultado, ela teve que amputar parte da perna direita.

Por ela ser usuária de maconha, feminista, de esquerda e crítica à violência policial, as comemorações ao fato não demoraram a começar. Em diversas páginas pela internet, piadas se espalhavam e aqueles que se opunham às ideologias da jovem comemoraram o fato. A página Orgulho de ser de direita, no Facebook, foi só mais uma entre elas.

Não é preciso pensar muito ou ter censo crítico aguçado para perceber o quanto isso é problemático. Pessoas estão celebrando tragédias alheias apenas porque não concordam com ideologias, ponto de vistas ou estilos de vida.

A questão é que não é preciso escolher um lado. Você não precisa se sensibilizar somente a artistas ou somente a pessoas anônimas. Ambos os grupos merecem empatia e comoção. Da mesma forma, os críticos à violência policial não devem ficar indiferentes às mortes de tantos policiais honestos que colocam suas vidas em risco para defender a população.

Assim como aqueles que reproduzem discursos como “bandido bom é bandido morto” e “direitos humanos para humanos direitos” deveriam repensar sobre a felicidade que sentem ao acompanharem tantas mortes nos noticiários.

Você não deve comemorar quando a atriz Letícia Sabatella é xingada em público por ser contrária ao processo de impeachment, nem quando a jurista Janaína Paschoal é agredida verbalmente num aeroporto por defender este processo político. A situação é exatamente a mesma, só mudam as personagens.

É como disse a vice-alta-comissária de direitos humanos da ONU, Kate Gilmore, na última semana: você não tem que gostar de mim para respeitar meus direitos. Eu não tenho que concordar com você para assegurar os seus.

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