Neil Gaiman e o oceano no fim do caminho

Em um universo repleto de fantasia, obra de escritor inglês traz importantes reflexões a respeito dos impactos da infância no mundo adulto


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Neil Gaiman tem aquela habilidade rara de construir algo complexo, reflexivo e muitas vezes assustador em torno do universo juvenil. Fez isso em Coraline – publicado em 2002 e muito bem adaptado para o cinema em 2009 – e voltou a fazer em O oceano no fim do caminho, lançado em 2013.

A narrativa gira em torno das lembranças de infância de um adulto que retorna à sua terra natal para um funeral. Confuso em relação ao momento delicado que ele passa em sua vida, por consequência de seu recente divórcio e outros problemas de adulto, ele senta à beira de um lago – o qual sua amiga de infância Lettie sempre se referia como um oceano – e começa a pensar sobre tudo o que viveu naquele local.

O personagem central não teve uma infância convencional. Era tímido e não tinha facilidade alguma para fazer ou manter amizades. Seu refúgio eram os livros. Encontrava nas páginas das obras literárias o conforto e proteção que não tinha em nenhum outro lugar, nem mesmo com sua família. “Livros eram mais confiáveis que pessoas, de qualquer forma”, ele dizia.

Um dia, um hóspede de sua família se matou após perder todo o seu dinheiro em apostas. A situação faz com que o protagonista da história (que nunca tem o seu nome revelado) conheça Lettie, uma adorável garotinha que mora em uma fazenda próxima à sua.

Lettie, sua mãe e avó são capazes de passar uma enorme sensação de paz e proteção ao protagonista da história. Por conta disso, ele as procura logo que algo sinistro acontece: ele acorda com uma moeda entalada em sua garganta.

Após analisar a moeda, a família de Lettie explica o que está acontecendo: algum ser de um universo paralelo está tentando dar dinheiro às pessoas de um jeito mórbido, colocando em risco suas vidas. Acreditam ainda que isso esteja relacionado com o recente suicídio do hóspede da família do garotinho.

A partir daí, Gaiman descreve uma aventura ao estilo Stranger Things, com um monstro manipulador, sarcástico e assustador. Coloca todas essas características humanas na criatura como que se estivesse nos alertando que um monstro só é realmente perigoso se for parecido com um humano.

Gaiman ainda reúne uma sequência de boas frases ao longo de toda a história (se você for do tipo de grifa o livro, mantenha o marca-texto ao seu lado durante toda a leitura), e nos faz refletir sobre o quanto o que é vivenciado na infância pode refletir na vida adulta.

Também nos convida a voltar a fazer algo que fazíamos quando éramos crianças, mas que nos esquecemos de fazer quando crescemos: explorar novas possibilidades ao invés de simplesmente seguir o mesmo caminho todos os dias.

O fato de as crianças serem protagonistas em muitos dos livros de Neil Gaiman talvez esteja relacionado ao fato de que temos muito a aprender (ou relembrar) com elas, inclusive sobre coragem.

É como diz Lettie em um trecho do livro: “Adultos não parecem com adultos por dentro também. Por fora, são grandes e descuidados e sempre sabem o que estão fazendo. Por dentro, parecem com quem sempre foram. A verdade é que não existem adultos. Nenhum nesse mundo inteiro”.

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