O dilema de inteligência x felicidade em Os Simpons

Por que Homer Simpson se torna muito mais triste no episódio em que o seu QI aumenta em 50 pontos?


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Em umas das cenas do episódio HOMR, da décima segunda temporada de Os Simpsons, Lisa exibe um gráfico com uma informação que constatou ao longo de sua vida: o índice de felicidade é proporcionalmente inverso ao de inteligência.

Na cena em questão, a informação é apresentada ao seu pai, Homer, que já havia entendido na prática o que a garotinha agora teorizava. Nesse episódio, Homer deixa de ser o bobalhão que conhecemos e se torna bastante inteligente depois que descobre, por acidente, que havia um giz de cera instalado em seu cérebro desde a infância.

Quando o giz é retirado, o QI de Homer aumenta em 50 pontos. Ele se sente inteligente, mas logo percebe que teria que pagar um preço bastante alto por isso.

As atividades que antes lhe garantiam diversão passaram a ser vistas como vazias e sem sentido; o sofrimento alheio – antes despercebido – agora estava evidente; e até mesmo a mais recente comédia romântica em exibição no cinema tornava-se previsível aos seus olhos.

Homer não aguentou a pressão: enfiou novamente o giz em seu cérebro, e voltou a ser o mesmo bobalhão – porém feliz – de sempre.

Antes de fazer isso, no entanto, teve duas ações bastante importantes. Em uma palestra na escola de Springfield, colocou o giz de cera como uma figura de linguagem. Disse que cada um de nós tem um giz metafórico impedindo que a nossa mente se abra. Pode ser um preconceito, uma intolerância ou até mesmo a dificuldade em tentar ouvir um ponto de vista diferente.

A segunda ação foi escrever uma carta à Lisa pouco antes de enfiar novamente o giz em seu cérebro. Nela, Homer dizia que estava adotando a saída dos covardes, mas que agora – ao ter vivenciado o que sua filha enfrenta todos os dias – passou a admirá-la ainda mais.

É evidente os Simpsons não foram pioneiros quando abordaram a questão “felicidade x inteligência”. O tema já foi discutido por diversos pensadores ao longo dos séculos, como Rousseau, e também já esteve em evidência em diversas expressões artísticas, como no filme Matrix.

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Constatações científicas também apontam para o que Lisa defende em seu gráfico. Um estudo realizado com 3.715 membros do American Mensa, uma sociedade que reúne as pessoas com QI acima de 130, mostra que essas pessoas estão mais propensas a uma série de problemas, inclusive psicológicos.

Trecho de reportagem publicada na Galileu a respeito do assunto explica que “de acordo com o estudo, isso acontece porque quanto mais inteligente, maior é seu nível de consciência sobre o que acontece ao seu redor. Assim, [as pessoas mais inteligentes] reagem mais sobre o que acontece no ambiente em que vivem, desencadeando em hiperatividade do sistema nervoso central. É a comprovação científica de que a ignorância é uma benção”.

É claro que não quero reforçar aquele estereótipo de pessoa inteligente e triste à la Nietzsche. As pessoas de QI elevado também se divertem, ficam bêbados e jogam conversa fora. Mas é evidente que a visão de mundo é modificada à medida em que se obtém conhecimento. As preocupações se tornam maiores, a consciência coletiva e a empatia se fortalecem e muitas atividades passam a ser vistas como fuga de pensamentos e sentimentos.

A ignorância, portanto, se apresenta como um dos meios mais eficazes para alcançar a felicidade. Simplifica as relações humanas e coloca o ignorante no centro de um universo do qual, na verdade, ele é apenas um grão de areia.

Essa felicidade proporcionada pela ignorância basicamente funciona como um anestésico. Deixa as pessoas acomodadas e passivas, mesmo que o mundo desmorone à sua frente.

É mais fácil, mais cômodo, mais feliz...só não sei se melhor, do ponto de vista da humanidade.

O que Homer vem nos mostrar é que diante do conhecimento, restam duas opções: fechar os olhos e alegar ignorância ou enfrentar um mundo hostil, desigual e injusto.


version 6/s/sociedade// //Bruno Inácio