O sofrimento alheio como forma de entretenimento

Lançado em 1935, "A noite dos desesperados", de Horace McCoy, expõe humilhações sofridas pela população mais pobre no período da Grande Depressão


Adaptação cinematográfica do clássico de Horace McCoy_.jpg

O escritor Horace McCoy tem como principal livro “A noite dos desesperados”, obra lançada em 1935 e que mais tarde se tornou um filme dirigido por Sidney Pollock e estrelado por Jane Fonda e Michael Sarrazin.

A trama apresenta a história de uma mulher e um homem – Gloria e Robert – que se conhecem por acaso e decidem, por necessidade financeira e desejo de alcançar a fama, participar de uma competição de dança bastante desgastante.

Pela regra da maratona, os casais participantes poderiam descansar dez minutos a cada uma hora e cinquenta minutos de dança. Teriam de usar esses pequenos intervalos para dormir, se alimentar e ir ao banheiro. Como se não bastasse, diariamente os casais participavam de longas corridas em que o último colocado era automaticamente eliminado.

Passar por tudo isso em busca de um prêmio no valor de mil dólares para o casal vencedor parece sem sentido, não é? No entanto, quando o livro foi lançado, na época da Grande Depressão americana, essas competições realmente aconteciam, reuniam muitos casais e chegavam a durar meses.

Em tempos de crise, aliás, competições como essa sempre ocorrem no mundo todo. Isso porque o desemprego, a fome e a falta de perspectiva fazem com que as pessoas se submetam a situações degradantes em busca de pequenas quantias.

Do outro lado, há quem vê nessa exploração uma oportunidade de ficar rico, já que no livro (e na vida real) boa parte da classe média é capaz de pagar ingressos para assistir pessoas mais pobres sendo humilhadas.

A elevada carga reflexiva sobre a condição humana nas páginas de Horace McCoy (uma das características mais marcantes da obra) foi muito bem recebida por autores como Jean Paul Sartre e Simone de Beauvoir, que classificaram “A noite dos desesperados” como a primeira obra existencialista dos Estados Unidos.

Boa parte dessa carga reflexiva vem de Gloria, personagem melancólica que não vê muito sentido na vida e expõe – muitas vezes através de metáforas – diversos problemas em situações tidas como normais na sociedade.

“A noite dos desesperados”, inclusive, é atemporal justamente porque o maior problema destacado pelo livro – o sofrimento alheio como forma de entretenimento – continua presente na mídia.

São muitos os exemplos que podem ser citados, especialmente na TV, onde pessoas que estão em busca de dinheiro até o alcançam, mas à custa de gincanas e provas que as ridicularizam diante de milhares (às vezes milhões) de telespectadores.

Em uma prosa ágil e capaz de causar mal-estar ao leitor, Horace McCoy questiona os valores morais de quem é capaz de deixar a empatia de lado para se divertir com alguns momentos de humilhação alheia. Também demonstra que competições como essa não testam apenas o limite do corpo e da mente das pessoas, mas, sobretudo, os limites da condição humana em um mundo que parece cada vez mais alheio ao sofrimento.

O autor Horace McCoy.jpg


version 20/s/literatura// @obvious, @obvioushp //Bruno Inácio