yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Herta Müller - O compromisso (O drama de sermos descartáveis)

Uma das mais humilhantes sensações da vida é a de sermos usados. Mas pode ser pior: sermos usados em segredo. Um segredo que nem nós mesmos podemos revelar.


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Herta Müller é uma mulher. O fato não necessariamente a transforma em uma narradora feminina; mas a narradora de O compromisso é uma mulher. Isso é uma visão, uma utopia, uma espécie de negociação entre o leitor e o texto.

A protagonista não tem nome, poderia personificar qualquer ser (ou pessoa – não nos esqueçamos que a paisagem é de totalitarismo), que por terror aos interrogatórios, mata aos poucos os que ainda não morreram sem saber. Necessita olhar ao seu redor e focalizar passageiros do trem que a leva à sala de questionamento.

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A época é o governo de Ceausescu, a opressão é mais do que um pano de fundo, as roupas vestidas todos os dias, a comida e o ar respirado. O terror obriga mulheres a colocar bilhetes nos bolsos de italianos pedindo que se casem com elas. Mas o grito de horror em O compromisso se disfarça de tédio. E quando a narrativa é de um tédio verdadeiro, não há quem nos acorde. Não há como seguir. O tédio disfarçado – ou usado como disfarce ou fuga – é dono de outro capítulo da existência: por favor, quero viver. Este é o caso da obra de Herta. E assim melões que podem envenenar, passageiros que comem quase escondidos, motoristas de trem sem educação, maridos alcoólatras, lembranças da infância não tão distante (pois é necessário mantê-la cerca) são os pontos de fuga; ou mudança de foco; ou criação da amnésia; ou qualquer coisa que afaste a narradora do medo e da esperança, sem os quais, segundo ela, o ser humano morre. Ou seja, há a busca pela morte de forma a não morrer: a busca faz com que a protagonista não morra (ou enlouqueça, como ela mesmo diz).

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A narrativa de O compromisso ultrapassa seu lugar, as condições políticas e sociais de um país, a falta de liberdade e a quase insanidade, a falta de esperança que espiona quem permanece lutando. Todas essas coisas podem ser circunstâncias, locais, presas ao tempo e a uma cultura específica, que não a nossa, a brasileira, ou a japonesa, ou a americana, ou a africana. A vida é reconhecida em uma literatura estranha à nossa realidade quando ultrapassa tudo isso e toca em pontos em que o ser humano não necessariamente sabe que existem até que os localiza nas linhas de um texto.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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