yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Tempo é dinheiro - Lionel Shriver (Morra e vá à falência ao mesmo tempo)

A vida é tão certeira quanto a morte, e, nela, basicamente pagamos para morrer. A autora Lionel Shriver afia suas unhas no verdadeiro drama da modernidade: para morrer você tem de ir à falência ao mesmo tempo. Afinal, para que serve seu seguro saúde?


Lionel Shriver.jpg

Ao decidir ler este livro, minhas expectativas já eram as melhores, uma vez que já havia lido outros dois livros da autora americana Lionel Shriver: Precisamos falar sobre o Kevin e O mundo pós-aniversário, ambas excelentes obras. Meu primeiro contato com Shriver, porém, não foi através de seus textos, mas de uma das palestras da Flip em que ela era convidada. Com um discurso frio, negativo e irônico, o que pensei de Shriver foi “ok, mais uma americana que odeia homens e deve ter algum trauma de infância”. Mesmo assim decidi ler Kevin, pois o assunto (um menino sociopata que mata seus colegas de classe) me pareceu coerente com a imagem que tive dela e, logo, se fosse boa escritora, o livro tinha tudo para ser acima da média, dadas as características do tema e da personalidade de Shriver.

Assim que comecei Precisamos falar sobre o Kevin já tive a percepção de que não se tratava de um tema banal e comum tratado de forma tradicional. O livro é fantástico. Após acabá-lo comecei imediatamente O mundo pós-aniversário, outra grata surpresa. Tornei-me fã de Shriver e coloquei-a na gaveta de escritores que, de vez em quando, terei de ler mais um livro para me lembrar do quão talentosos são. Sendo assim, quando escolhi Tempo é dinheiro, foi ao acaso, simplesmente o primeiro que estava na prateleira. Nem me dei ao trabalho de checar sobre o que era, pois bons escritores fazem de qualquer assunto algo interessante e enriquecedor.

capa_tempoedinheiro1.jpg

Shriver, americana residente em Londres, geralmente (mas nem sempre) situa suas histórias nos Estados Unidos, e, neste caso, a crítica é ao sistema de saúde americano, que basicamente leva qualquer pessoa à miséria em caso de alguma doença grave ou de tratamento contínuo, uma vez que o cidadão fica dividido entre manter um seguro de saúde de custos altíssimos ou correr o risco de, quando chegar a hora fatal, ter de pagar as contas do próprio bolso.

capa_tempoedinheiro2.jpg

Tempo é dinheiro trata da vida de um casal que, ao chegar perto de se aposentar, enfrenta uma tragédia: aos cinquenta e poucos anos, a mulher, Glynis, descobre estar com um câncer extremamente agressivo. Daí em diante, a história toma o rumo do desfiladeiro: milhares de dólares mensais em custos de hospitais e médicos. A crítica é feroz. Mas Shriver nunca escreve apenas em uma camada. Seus textos possuem uma clareza em relação aos vários aspectos da vida que circundam qualquer situação humana e são vários os aspectos abordados simultaneamente. O leitor é incapaz de largar o livro.

capa_tempoedinheiro3.jpg

Ao mesmo tempo em que o dinheiro se vai, surgem situações inimagináveis nas relações entre os personagens, ao ponto de termos a sensação de que estamos lendo uma biografia in loco: a escritora está praticamente escrevendo o que testemunha em tempo real. Isso me leva a pensar que, ou Shriver de fato viveu algo semelhante, ou possui uma percepção do ser humano muito acima do cidadão comum. As situações, questões, dramas e expectativas vividas pelos membros da família (o marido, a mulher doente, seus dois filhos, seus parentes e um casal de amigos próximos) são de fato tão pertinentes e complexos. A verdade com que nos deparamos no texto torna-se uma vertigem.

Mais uma vez, Lionel Shriver consegue levar o realismo às últimas consequências, fazendo com que a experiência de ler seu texto seja forte o suficiente para deslocar o leitor da realidade e removê-lo de sua própria vida, levando-o a viver o que lê. E o que mais é isso do que um excelente livro?


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/literatura// @destaque, @obvious //Julian Barg