yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

The Best of Everything - Richard Yates (Onze tipos de solidão)

Quem haverá tido a estranha ideia de inventar a noção de que o casamento é a passagem que separa o vazio total da felicidade completa e plena? Richard Yates, autor americano, no fim da década de 50 já nos faz mergulhar no mar de dúvidas e vertigens que o ato nos provoca.


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Não me canso de ler (e escrever sobre) a obra de Richard Yates. Já em seu primeiro romance, Revolutionary Road (ou Foi apenas um sonho, em português – também um longa com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet), Yates parece unir as melhores características masculinas e femininas da escrita de alta qualidade. E quando falo de escrita masculina ou feminina, não me refiro à tão criticada escrita “de gênero”, mas sim à capacidade de ver o mundo e senti-lo do ponto de vista emocional que homens e mulheres não compartilham. Os personagens criados por Yates são nítidos e poderiam estar vivendo ao nosso lado enquanto testemunhamos seus pensamentos e sensações tão vividamente como se nenhum outro mundo existisse a não ser o texto de Yates. Há livros que lemos e livros que vivemos. Richard Yates não nos dá o direito de escolha.

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Em “The Best of Everything”, um conto sensível e sutil, que exige do leitor uma atenção semelhante à que a vida nos requer, uma moça está prestes a se casar, e todos os preparativos estão sendo feitos. Mas há algo de estranho em cada linha. Algo off. Começando por uma amiga que resolve viajar para não encontrar o noivo quando este vem visitar sua futura esposa, até memórias de momentos em que o futuro marido não era sequer uma opção para um relacionamento, pode-se vivenciar como algo se transforma no ser humano. E a transformação é quase tão lenta que não a percebemos enquanto ela se desenrola. Mas se olharmos para suas consequências, o mundo virou de ponta cabeça entre o primeiro segundo de uma sequência de fatos até o fim deles (se é que há fim em algo).

Vale lembrar que “The Best of Everything” tem como presente não os dias atuais, mas o final da década de 1950. E fica claro no conto que – apesar de nos dias de hoje isso ainda existir, de certa forma (inacreditavelmente) – casar-se era como um sonho de princesa, o momento em que tudo mudaria e a vida se tornaria completa, maravilhosa e indescritivelmente bela (#sqn). Yates ousa ao escrever um conto em que a dúvida na cabeça da noiva já existia antes da primeira palavra lida. Mas ela está escondida em meio a muitas outras palavras, assim como o autor esconde palavras pelo texto todo, como grandes escritores conseguem, e, assim, fazem com que nos proponhamos a reler seus textos porque temos a sensação de que perdemos algo no caminho ou de que temos de achar Wally em meio à multidão. Um Wally tão pequeno como qualquer outro bonequinho, mas com enorme significado. Um símbolo, uma pista de que enfim acharemos a chave para o mistério dos sentimentos perdidos que completam o quebra-cabeça da história, da vida do personagem, da nossa própria vida.

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As duas últimas páginas do conto são uma das mais sofisticadas armadilhas da literatura: o conto acaba e não percebemos como. E isso dentro de um texto que já vinha nos avisando que cada milissegundo de desatenção nos levaria à bancarrota. Resultado: temos que voltar atrás e relê-las para perceber que, assim como na vida real, grandes acontecimentos se realizam sem aviso prévio e que o monstro, aquele monstro que não havíamos percebido nitidamente, mas apenas havíamos sonhado com ele, ou pensado que a vida dos outros é diferente da nossa, veio para nos visitar. E o monstro, no final das contas, é o melhor de tudo.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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