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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

James Scott - The Kept (Como se perder na vida tentando achá-la)

A busca pela vida é quase sempre um caminho pela morte, ou uma viagem de mãos dadas com ela. Justamente o que mais buscamos é o que perderemos. Justamente o que mais queremos é o que não temos.


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Não se assuste, mas The Kept é uma obra que tem o poder de praticamente apavorar (no bom e no mau sentido) seus leitores. As cenas iniciais do romance mostram a mãe de família Elspeth chegando em casa, em meio à neve, e encontrando seus filhos e seu marido mortos a tiros por desconhecidos que fugiram. Um dos filhos de Elspeth, Caleb, porém, por viver na cabana ao lado da casa e não junto à família, foi poupado do massacre. Mas apavorado como estava, ao ver sua mãe chegando, atira com sua espingarda tentando matá-la ao confundi-la com um dos três assassinos que fugiram. Caleb então passa a cuidar da saúde da mãe, e um tempo depois ambos saem em busca dos assassinos procurando vingança.

Assim, Caleb e Elspeth terminam em uma cidadezinha chamada Watersbridge, na qual quase tudo do faroeste está presente: bordéis com menores de idade, assassinatos impunes, a lei que passa despercebida de acordo com a influência dos moradores mais poderosos e mais temidos. O panorama da história parece ser o fim do século XIX ou início do século XX, uma vez que o transporte é feito a cavalos, as guerras a espingardas e a lei é a do mais corajoso.

Para não prejudicar a busca pelos assassinos, Elspeth se faz passar por um homem e adota o nome do ex-marido, Jonah (com o qual nunca pôde ter filhos, o que a levou a roubar crianças de outras famílias – Caleb, portanto, tampouco era filho legítimo de Elspeth).

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Uma das características mais impressionantes do enredo do livro é que quem de fato tenta vingar a morte da família é Caleb, e não a mãe. Caleb é apenas um menino de 12 anos, mas em muitos momentos temos a sensação estar frente a um adulto que tem um plano bem delineado sobre como acabar com os assassinos. Elspeth se comporta mais como uma protetora, que observa Caleb de perto e tenta garantir que o menino não se machuque demasiadamente ou morra em uma situação tão tensa como ambos vivem em Watersbridge.

Grande parte do enredo se desenrola à medida que Elspeth se esforça para se passar por homem e ajudar o filho, e o leitor se pergunta o motivo pelo qual a violência de fato existe ou existiu neste romance.

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James Scott, em The Kept, chega a ser de uma aridez na linguagem de descrição dos personagens que torna a leitura uma tarefa árdua. O autor foi comparado a Cormac McCarthy devido a algumas características, e de fato há algumas semelhanças. Mas McCarthy é bastante mais econômico nas palavras e joga muito mais com o silêncio como voz ativa, o que facilita a participação do leitor como contribuinte para a formação da obra. James Scott, ao menos neste livro, abre as portas com uma grande explosão de expectativa e mais tarde transforma a leitura em uma luta para aqueles que não estão acostumados a se degladiar com a literatura.

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As primeiras páginas de The Kept prometem um livro que não é oferecido ao leitor mais à frente. Há todo um entusiasmo e uma paisagem que fazem com que o leitor tenha a sensação de que o ritmo do livro será frenético e emocionante. Mas, muito rapidamente a narrativa corre para o lado contrário e se transforma em fatos lentos, detalhistas e descritivos. Talvez não fosse o começo, o contraste não seria tão radical. Mas este definitivamente não é um livro para os que gostam de ler uma boa história, apaixonar-se pelos personagens e lembrar-se de um grande enredo. The Kept é literatura para literários, para aqueles que têm o prazer de fazer da literatura por si só o ponto principal da leitura, e apenas em segundo lugar os fatos e o enredo narrados. Arrisco dizer que muitos leitores se entediarão uma vez que a obra se transforma, logo no início. Não há que confundir e afirmar que a obra é de baixa qualidade. Longe disso. Apenas não parece ser para muitos leitores. E isso não é necessariamente uma crítica, mas sim uma característica.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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