yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Barba ensopada de sangue - Daniel Galera (Há tempo na vida, mas onde está esse fantasma?)

Não há como fugir do tempo. Tenha você a impressão de que sua vida está escorrendo pelos dedos ou de que o dia nunca acaba, você é escravo deste quase-deus. Na obra de Daniel Galera, você será exigido a aceitar qualquer percepção que tenha do tempo. Pode gostar ou odiar. Ou nem ligar. Mas vai ter de lidar com ele.


BarbaEnsopadaDeSangue.jpg

Foi difícil começar a ler este livro. Não digo “o início” do livro. Não digo que seu início é difícil. Foi difícil me decidir a abrir a primeira página, a ler a primeira palavra, decidir que esse seria o livro da vez. E eu tento me enganar, mas sei o porquê disso: porque pelo que já havia lido de Daniel Galera, pelo fato deste livro ter sido ganhador de prêmios que respeito, por Bernardo Carvalho (um dos meus escritores favoritos) ter falado bem dele e outros motivos soltos pelo universo, eu sabia que seria um livro bom, talvez excelente. E tenho medo de coisas muito boas porque é horrível quando elas acabam. Como eu faria pra resolver meu desapontamento de fechar o livro? Mas encarei. Fui de frente e valeu a pena, mesmo tendo acontecido tudo o que acabei de mencionar.

Nosso protagonista sem nome, após a morte do pai e acompanhado da cadela Beta, que havia prometido ao pai que ia sacrificar mas nunca o fez, muda-se para Garopaba com o intuito de saber o que houve de verdade com seu avô, que simplesmente sumiu muitas décadas antes em meio a um mistério que faz com que a cidade toda se cala quando o assunto é sua suposta morte ou fuga. Tudo vai acontecendo lentamente e o rapaz vai formando uma vida que tem o poder de, ao mesmo tempo, ser muito envolvida com a cidade, o mar e as pessoas ao seu redor, e extremamente solitária. Não há uma “cola” emocional que o faça tornar-se parte de nada nem de ninguém. As pessoas vêm e vão, o rapaz nem parece sentir o que houve. No tempo em que fica em Garopaba, arranja um emprego, se relaciona com algumas mulheres, forma quase-amigos, nada diariamente em um mar paradisíaco e, em um silêncio mental que sentimos através das linhas do livro, traduz-se uma paciência para descobrir o tal mistério que poucos seres humanos possuem. É uma missão, dure quanto durar, custe o que custar.

BarbaEnsopadaDeSangue2.jpg

Não há sentido em estragar tudo e contar se o rapaz descobre algo, casa com alguém, se apaixona, se envolve em confusões, chega a seu destino, faz as pazes com o irmão. Primeiro, porque este artigo seria um spoiler. Segundo, porque parece que o livro é sobre isso, mas não acredito que seja. Barba ensopada de sangue é uma ode ao tempo. Uma dedicatória que há muito não temos em nossa vida cotidiana e a maioria de nós não se permite vivenciar: a realidade de não ter pressa de viver.

O livro é uma lição de que após todo o nosso dia a dia neurótico, devemos nos dedicar a viver. Ler o livro de Daniel Galera é viver, muito mais do que ler, pois a obra não nos deixa correr, virar as páginas com pressa, tentar saber o que está para acontecer de uma vez por todas, terminar o livro logo para começar outras dezenas que estão na fila para serem lidos. Galera não deixa. Neste caso, o que o autor conseguiu (além de um livro excelente), foi ensinar ao leitor que literatura exige tempo, tem seu caminho natural, que não pode ser apressado, e que por mais que acreditemos que não temos tempo para nada, isso é uma mentira, pois é impossível ler seu livro sem respeitar essa lei. Você está com pressa para ver a novela, falar ao telefone, terminar um trabalho, subir e descer escadas, ver aquele programa horroroso na televisão? Você não tem como ler Barba ensopada de sangue. Para se ler Barba ensopada de sangue há que parar a vida e ler Barba ensopada de sangue.

BarbaEnsopadaDeSangue3.jpg

Daniel Galera, além de escrever um livro excelente (já disse isso), ensina, nos dias atuais, que a pressa e nossa neurose por terminar o que nunca começamos é uma mentira. Que há tempo nesta vida sim. E para tudo. E que o tempo não é uma ilusão e nem uma utopia. Sem ele você não lê Barba ensopada de sangue. Mas há de se frisar: o livro não é lento, não é isso que digo. O livro é incrivelmente natural em seu respeito ao tempo e é um grande amigo do leitor. E que amigo verdadeiro você deixaria de lado por falta de tempo? Nenhum. A não ser que não seja seu amigo de verdade.

Agradeço ao autor por me mostrar que tenho muito mais tempo de vida do que acreditava ter. E pela história, claro.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/literatura// @destaque, @obvious //Julian Barg