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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Ian McEwan – O jardim de cimento (A sexualidade e a escuridão da alma)

Assim como temos medo de filmes com palhaços, deveríamos ter medo de filmes com crianças. Como deixá-las sozinhas e evitar que o caos tome conta do mundo? Em um universo ainda sem freios, a velocidade com que a destruição pode acontecer é incontrolável.


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O nome de Ian McEwan tornou-se, ao menos no Brasil, verdadeiramente popular devido ao sucesso da adaptação para o cinema de seu romance Desejo e reparação (vale apontar que o título original do livro é apenas Reparação: o mercado do cinema precisou do “desejo”). O filme, quase um blockbuster, conta com grandes estrelas e, assim como o livro, brinca com o leitor (alguns se sentem enganados) ao “mentir” sobre quem é o narrador e o que de fato é a realidade. Mas existe algo de sofisticado na obra de McEwan. Já se pode perceber um autor de acordo com intenções que sabiamente alcançam devida qualidade literária e possibilidade cinematográfica.

Em Jardim de cimento, McEwan parece ser outra pessoa (ou outro autor, ou ter ainda outra visão do mundo e da literatura). É com certa dificuldade que nos deparamos com a obra e conseguimos colocá-la na mesma estante, sob o mesmo nome, em comparação a Desejo e reparação. O que a última tem de suave (em um assunto profundo e imortal) a primeira nos ataca com uma narrativa “dual”: existe a crueza e a maneira seca e doída com que o tudo e o nada se parecem ao mesmo tempo em que nada parece acontecer e um abismo se forma inconscientemente na mente do leitor.

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Em uma família de quatro crianças (um menino e uma menina e um adolescente e uma menina já perto de seus 16 anos), o abandono vem com uma força arrebatadora a arrancar o caminho de suas vidas. Logo após a morte de um pai duro e aparentemente frio e de poucos afagos, a morte da mãe devido a uma doença inexplicável os deixa em uma situação de pouca escolha: ou escondem o cadáver ou correm o risco de serem separados em orfanatos que destruiriam o resto de família que lhes sobrava.

A narrativa não caminha até o momento em que o leitor percebe que já percorreu um longo caminho (sim!). Jack, de 15 anos, se masturba constantemente; Tom, o menino mais novo, de sete anos, é vestido de mulher por suas irmãs, por simples “diversão”; Julie, a mais velha, provoca Jack quase que invisivelmente em meio ao desabrochar de uma sexualidade intensa.

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O que acontece em um lar desgovernado por regras sociais e dominado por instintos assemelha-se a situações como as que surgem em Lord of the Flies, de William Golding. Mas, enquanto um se foca em uma guerra política e quase animal, McEwan nos mostra como um suposto dia a dia marcado pelo tédio de quatro crianças pode se tornar o inferno do instinto sexual em um ser humano. Seja este politicamente correto ou socialmente doentio, o ponto é o ímpeto desenfreado que talvez não encontrássemos no McEwan atual. A dor, o medo e a transgressão são inevitáveis.


Julian Barg

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