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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

The Jockey – Carson McCullers (A literatura como espelhamento do ser)

Quando se abre um livro é como se colocássemos um espelho à nossa frente. Não veremos nada na obra que não exista em nós mesmos, mesmo que indiretamente. Há inclusive os que preferem comprar livros a ir a um psicanalista.


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Quando comecei a escrever neste blog, o primeiro conto do qual falei foi de um livro chamado Onze tipos de solidão, do magnífico Richard Yates. O escritor consegue, quase sempre nas entrelinhas ou paisagens, retratar a solidão pela que o ser humano passa (e muitas vezes permanece) na vida. O título do livro já me chamou a atenção por isso, principalmente porque a solidão é inerente à vida e, nos dias atuais, parece estar aumentando à medida que cresce também o número de pessoas no mundo, em um movimento irônico.

Às vezes, como qualquer leitor (quase) compulsivo, compro livros às cegas. Este pequeno livro de quatro contos de Carson McCullers foi um deles. O mais natural seria escrever sobre o conto principal, “Wunderkind”, mas meus olhos foram correndo para frente e quando terminei “The Jockey” lembrey de Richard Yates e suas “solidões”. Não tive escolha: “The Jockey” seria o conto sobre o qual escreveria.

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O argumento é simples: um jóquei está em uma festa, sozinho, encostado na parede, quando avista três homens que, cada um de sua forma, estão envolvidos com corridas de cavalos. Tanto os homens quanto o jóquei evitam ir uns ao encontro dos outros. Meses antes um amigo próximo do jóquei sofreu um acidente muito grave que lhe deixou sequelas. Desde então, o jóquei entrou em decadência, começou a engordar, a beber e a soltar frases aparentemente desconexas, mas que nada mais são do que uma grande revolta contra a vida. Dessas que todos temos quando algo terrível nos acontece e nos sentimos abandonados por tudo e todos, e por algum deus, caso ele exista e caso acreditemos em um.

Nada muito marcante se passa se formos analisar os fatos do conto. E é nisso que Carson McCullers e Richard Yates são mestres: páginas e páginas de palavras que não descrevem aparentemente nada que nos faça visualizar uma ação no conto, mas que conseguem invadir-nos com a solidão dos personagens. O jóquei que bebe, fala, caminha, olha para o lado, pede batatas fritas, ofende seus colegas, está sofrendo. Todos esses atos são fruto de um sentimento invisível tanto para os que o veem sentado na mesa ou caminhando pelo salão como para nós, leitores, que sentimos sua solidão sem conseguirmos vê-la. Mas é claro que ela está nas palavras. A grande questão é: em qual delas? Em uma ou duas? Em um grupo de quatro ou cinco? Em uma frase, um parágrafo? McCullers domina tão bem a escrita, que não conseguimos nos agarrar a nada que se assemelhe à solidão do personagem. Mas a escritora atinge o que grandes artistas logram atingir: imediatamente essa narrativa alheia (sobre um jóquei) se transforma em nossa própria solidão, pois todos nós temos algo dela guardados em nós. A aproximação entre leitor e texto se dá dessa forma: por espelhamento. “Olhamos” o jóquei e sentimos (ou até falamos a nós mesmos): “eu sei o que é isso”.

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O conto termina antes dos possíveis anos que tardarão para que um único acontecimento breve faça com que o jóquei tenha mudado tanto, sua vida tenha se transformado. Mas é claro que a maravilha (e a desgraça) da vida está nas emoções e o resto fica em segundo plano. Sem emoções o ser humano não vive, e em alguns casos parece ser preferível passar por emoções negativas, tristezas, melancolias, rancores e desgraças do que não passar por nada. Ser alguém é sentir algo. Sem sentimentos o ser humano parece não se reconhecer. E nas poucas páginas do conto, o jóquei se transforma em nós mesmos, ou vice-versa, e a literatura novamente faz com que existamos, mesmo com aquele toque frio e oco da solidão.

Levei menos de 10 minutos para ler este conto. Ele permanecerá comigo por infinitamente mais tempo que isso. Como já falei antes, a literatura (e a arte) aumenta nosso tempo de vida.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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