yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Amor Divino – Julia Alvarez

Muitos acham a “normalidade” entediante; muitos a adoram, lhes dá segurança. Mas e como se encaixa o amor dentro das vidas em que vivemos, “normais” cada uma de sua forma?


(Se a vida é supostamente divina, o amor teria de ser igualmente divino?)

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Talvez uma das grandes desgraças pessoais pela que passa cada ser humano (salvo alguns acima dos sentimentos mais mundanos), seja a comparação entre si e seus semelhantes. E nessa comparação, quase sempre saímos perdendo. Não é à toa que “a grama do vizinho sempre é mais verde”: o sentimento de que somos “menos”, temos menos, conseguimos menos e todos os outros menos são muito presentes na vida de todos, principalmente na era das redes sociais e outras mídias, em que apenas o sucesso (ou a aparência de sucesso) é mostrada, e todo o resto é deixado de lado.

Em “Amor Divino”, Julia Alvarez é cruel e bondosa ao mesmo tempo, e pelos mesmos motivos. É na “normalidade” da vida que moram os melhores e piores sentimentos, mas também é nessa normalidade que todos vivemos. Ao final do dia (diga-se também da vida), nossos dramas são todos iguais e nossas alegrias também estranhamente semelhantes.

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Seu conto já contém uma das ironias da vida no próprio título: o “papito”, avô da protagonista Yolanda, já em estado de delírio devido à doença e à velhice, confunde uma música que diz Juventude divina e transforma a letra em Amor divino. Mas também ironicamente é no amor de Yolanda, esse amor descomunal, cheio de dores e desencontros e coisas inexplicadas que se baseia o conto. É o amor do dia a dia, ou seja, da normalidade. É o amor de Yolanda por sua neta, seu mencionado avô, pelo “quase ex-marido” que não lhe quer conceder o divórcio, mas que de alguma forma ela considera parte de sua vida (lembra-se inclusive exatamente dos anos em que carregou seu sobrenome britânico, que lembra um título nobre, coisa que a mãe de Yolanda nunca deixou de acreditar que de fato era do que se tratava).

Em outra camada, Julia Alvarez, descendente direta de Dominicanos, nascida em Nova York, situa a história dessa pequena família nos EUA, mas naquele mundo “flutuante” que é o dos estrangeiros que não se mesclam ao povo do país em que vivem, e, assim, existem em um mundo que nem mesmo é sua terra natal, mas que dentro de casa, também não deixa de ser. Em busca de uma vida melhor, emigraram para um país mais organizado, mais próspero e com a esperança de um futuro melhor. A ironia, porém, é a de que basicamente continuam morando na República Dominicana, e esse “amor divino” aparece em tudo: nas relações familiares, nas memórias, na língua materna, no fato de que persistem em batizar seus filhos, netos, bisnetos e tataranetos com os mesmos nomes latinos. Ou seja, o amor, seja ele sofrido ou não, se aproxima da divindade, do instinto de não perder suas raízes.

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Julia Alvarez, em “Amor Divino”, consegue nos mostrar como, presente em cada um de nós, com todos os ódios e revoltas e desenganos da vida, pode e existe, sem que possamos escolher, um amor acima de tudo, que convive lado a lado com o ódio, mas que nem que queiramos pode deixar de existir, pois o instinto de viver por si só não deixa de ser uma forma de amor. Se a vida é divina, também é esse amor.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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