yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

The Sinatra Club - A história da máfia nova-iorquina

Um relato recheado de verdade (e talvez ficção) sobre o que acontecia nos bueiros da máfia nova-iorquina desde o final dos anos 60 até sua derradeira destruição pelo tráfico de drogas.


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O título The Sinatra Club se refere ao clube noturno “secreto” que o autor, Salvatore Polisi, ex-membro da máfia nova-iorquina, fundou em 1971 e administrou até 1974, ano em que as coisas começaram a desmoronar entre as famílias tradicionais de mafiosos no Brooklyn e no Queens.

O livro é uma biografia do autor focada em sua vida pessoal e “profissional” no mundo do crime, e, assim, termina por ser também uma espécie de biografia da máfia entre o final dos anos 1960, passando pelo período mais transformador – os anos 1970 – e chegando até o que poderemos chamar de “fim”, em 1992, quando o chefão John Gotti foi condenado por diversos crimes e mandando à prisão, onde morreu.

No início do livro temos um índice com uma lista considerável de personagens citados no livro, de forma a podermos nos situar melhor, já que Polisi entra em detalhes minuciosos sobre a Vida, termo usado para se referir ao mundo da máfia. O autor conta fatos desde sua infância, quando sua mãe deixou a família para supostamente seguir na vida do crime, já que o pai de Sal decidiu levar uma vida honesta e se afastou dos mafiosos. Sal foi praticamente criado pelo tio, que ensinou a ele todos os códigos de conduta e os truques para ser um bom mafioso. Ao longo do livro, Sal se pergunta várias vezes se o tio é, na realidade, seu verdadeiro pai.

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Após termos uma noção da família e da adolescência de Sal e de sua entrada para a máfia, iniciam-se as partes do livro que de fato nos contam como as operações, as guerras e as leis entre as cinco famílias funcionavam. Polisi entra em detalhes sobre diversas operações, roubos e assassinatos (inclusive creditando o assassinato do presidente Kennedy, em 1963, à máfia) de forma clara e sem rodeios.

O auge de sua posição na Vida acontece no final de 1971 com o The Sinatra Club, fundado por ele, bar em que as cinco famílias rivais de Nova York – Gambino, Bonanno, Genovese, Colombo e Lucchese – se encontravam para beber e jogar cartas, mesmo com as guerras que aconteciam entre elas pelo domínio de território. Polisi afirma que o “clube” era um caso à parte por unir tantos grupos que se odiavam. Mas, o Sinatra Club era também uma maneira que Sal encontrou para encobrir sua lavagem de dinheiro. O mafioso começou cedo a quebrar regras éticas que seu tio Tony e outros mafiosos da velha guarda pregavam: jamais traficar drogas. Polisi comprava e vendia heroína sem o conhecimento dos chefes, o que poderia levá-lo a ser assassinado.

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Ao longo do livro ficamos sabendo, sempre através da voz do autor, como seu casamento se desfez, como a Vida o levou a negligenciar os filhos e se apaixonar verdadeiramente por uma dona de prostíbulo, e claro, mais que nada, de que forma a máfia foi desmoronando à medida que novos membros eram iniciados e a mudança dos tempos dava sinais de enfraquecimento, principalmente a partir do tráfico de drogas pesadas, quebra da ética old school entre as famílias e o cerco que a polícia e o FBI começaram a fazer, de forma a transformar mafiosos em rats, ou seja, dedos-duros e traidores (como Sal Polisi).

Polisi, de administrador do Sinatra Club, ladrão de bancos, assassino, agiota, e criminoso em geral, inclusive ao lado de Fox e Tommy DeSimone, membros de duas outras famílias, transformou-se em traidor a partir do momento em que foi condenado à prisão pela segunda vez, agora por pelo menos 25 anos. Em troca da absolvição, depôs contra John Gotti, sendo um dos grandes responsáveis pela prisão do “chefão” da época. Outro ponto alto do livro é a revelação sobre quem foi o espião que se infiltrou entre os mafiosos durante 20 anos, trabalhando não apenas para o FBI, mas para a polícia também, sem o conhecimento de nenhuma das partes.

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Sal Polisi não mede palavras para falar de sua vida de crimes. Com a ajuda de um jornalista, o autor escreveu um livro direto, sem atalhos e com um ritmo próprio de filmes como O poderoso chefão, Os bons companheiros, Donnie Brasco e Cassino, que inclusive são comentados e alguns de seus personagens revelados segundo os conhecimentos de Polisi sobre quem seriam os verdadeiros mafiosos nos quais os diretores se basearam. A linguagem usada faz com que o livro seja interessante, empolgante e divertido até mesmo para quem não é fã do gênero policial.

The Sinatra Club é um livro excelente. A quantidade de informação em nenhum momento se torna um empecilho e o que o leitor mais quer é virar a página para seguir lendo, com a probabilidade de querer assistir (ou assistir novamente) aos filmes do gênero. Apenas as pessoas que verdadeiramente odeiam o gênero se entediariam com a obra, pois o livro é, além de tudo, a história de uma vida interessante, mesmo que pouquíssimo honesta e ética, já que a própria revelação de tantos fatos e segredos teriam tudo para colocar sua cabeça a prêmio. O livro é cruel, frenético e humano ao mesmo tempo, pois a linguagem usada nos faz esquecer que estamos lendo, tão genuína e presente é a voz de Polisi ao nos contar suas histórias.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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