yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Ulysses - James Joyce (Telêmaco; uma câmera)

Um artigo, uma resenha, alguns poucos parágrafos sobre Ulysses? Impossível. Uma câmera que focaliza Telêmaco, primeiro episódio da obra, me parece mais correto.


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Usurpador.

Talvez um dos melhores finais já escritos. Em Telêmaco o leitor de Ulysses é enganado, pois Joyce o leva a crer que todos os boatos sobre a densidade, o fluxo de consciência quase desmedido e a lentidão obrigatória de uma primeira leitura da obra eram falsos (ou não tão intensos assim).

O dia começa cedo para o alegre Buck Mulligan e seu amigo(?) Stephen Dedalus, este último o lado cinzento da narrativa, do raciocínio e da percepção a que o leitor será exposto. O capítulo parece começar com uma missa, com o sol já brilhando de alguma forma e os dois companheiros, opostos em quase tudo, iniciando o dia cada um à sua maneira: Mulligan com piadas sobre todos e tudo o que lhe passa pela cabeça – com certa ironia – e Dedalus distraído grande parte do tempo por Buck, únicos momentos em que não volta a se afundar em sua mente obscura, negativa e dominada pelo sofrimento dos que pensam tortuosamente.

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Acaba a primeira página e pensamos: fluxo de consciência? Talvez não. Nem no horizonte. Até que nos damos de cara com: Chrysostomos. A palavra aparece no meio do texto, solta, referindo-se aos dentes de ouro de Mulligan. Uma pequena amostra de que o narrador se confunde, ou nos confunde – ou Joyce nos confunde (ou ainda nos dá uma pista do que virá). Chrysostomos soa, ecoa vindo de uma voz ainda não definida. A narrativa é retomada.

Telêmaco é um combate, ou a preparação de uma série de combates invisíveis: Mulligan X Dedalus (ou o contrário, pois parece que o segundo é quem guarda a violência emocional de um (des)avisado); Dedalus X Haines: este um inglês que, no mínimo, pronuncia palavras erradas em momentos proibidos – todos os momentos o são quando se trata de Dedalus; uma guerra de nações, ou melhor, uma mágoa da Irlanda em relação à Inglaterra, pois o que mais poderia ser a “velha senhora” que traz leite a nossos heróis e nem sequer recebe todo a quantia de dinheiro por sua venda, quando mais tarde sabemos que Mulligan tinha moedas de sobra para o que considera mais importante? A Irlanda está sendo maltratada novamente? Afinal o que quer Haines, esse inglês quase intruso? Suas perguntas sobre religião, seu ódio em relação aos judeus, seu sotaque que confunde nossa amiga leiteira... Onde está nos levando todo o cenário teatral e preparatório para futuros episódios, esses sim nos quais “Chrysostomos” nunca chegaria perto de um fluxo de consciência? Nós, leitores, vamos nos aproximando da praia onde Mulligan tomará seu banho, radiante e feliz, o mesmo em que um corpo sumiu e promete, soturno, surgir boiando hoje mesmo, no dia de Ulysses. E entramos na água com Buck, mas também ficamos de fora, com Dedalus. Joyce conseguiu: o leitor é cúmplice sempre.

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A torre em que Mulligan, Dedalus e Haines saboreiam, enfrentam e diluem uma conversa que se transforma em simbologias a cada segundo foram construídas para a defesa da Irlanda contra possíveis ataques de Napoleão. Usurpador? Napoleão? São muitos os usurpadores, e eles virão, assim como já vieram antes da primeira página do livro e seguirão pela obra. Mulligan nada, cabeça de foca. Dedalus fugirá para a escola, depois para a praia.

Talvez ele um usurpador, talvez não.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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