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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Hari Kunzru - Deuses sem homens (a criação de uma nova literatura)

Considerado o criador de um novo tipo de literatura, Hari Kunzru surpreende, empolga e rompe barreiras da narrativa em Deuses sem homens.


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Deuses sem homens constitui-se de várias narrativas que se passam em diferentes épocas, variando entre o século XVIII e os anos 2008 e 2009, nos quais se passa o núcleo do enredo. Dividido em capítulos relativamente curtos que saltam no tempo, inicialmente temos a sensação de que estamos lendo pequenos contos independentes. À medida que a história se desenrola, porém, os vários acontecimentos e personagens que se separam pela distância das décadas logo virão a se unir em favor de um propósito central.

O enredo dominante de Deuses sem homens centra-se na história do casal em crise Jaz e Lisa, de diferentes raças e religiões (ele punjabi, ela judia) e de seu filho autista, Raj. Os três, durante uma passagem pelo deserto cerca de Las Vegas, são o centro da trama uma vez que são o “motivo” usado para entrarmos em contato com diferentes questões como a crise de identidade entre diferentes culturas, o relacionamento amoroso entre duas pessoas que vivem dificuldades ao divergirem sobre como seu filho deve ser educado, as pressões do mundo corporativo ao que Jaz está atrelado e, principalmente, como duas pessoas podem reagir de formas extremamente conflitantes diante de um fato inexplicável e misterioso: Raj desaparece no deserto e reaparece meses depois em meio a uma “luz brilhante” durante um treino de simulação de guerra na Califórnia. Tudo indica que Raj foi abduzido por extraterrestres, mas o fato gerador de especulações é maximizado pelo fato de o garoto ter voltado sem nenhum traço da doença que o impossibilitava de ter uma vida normal até então. Raj inclusive passa a ser considerado um menino com capacidades acima da média. O que parece ser um final feliz é mais um gerador de crise entre o casal, uma vez que Lisa entrega-se a estudos místicos e interiormente agradece pelo “milagre” sem maiores questionamentos, enquanto Jaz desequilibra-se emocionalmente ao crer que seu filho não é de fato a mesma pessoa, mas sim outro ser habitando o corpo do menino que uma vez foi seu filho.

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O segundo enredo mais marcante da obra centra-se no começo da década de 1970, quando um grupo de hippies, inicialmente com intenções de libertação de preconceitos e a favor do conceito de amor livre, vai tornando-se o contrário do que uma vez pretendiam pregar: drogas pesadas e prostituição tomam o lugar da paz e do amor e terminam por escravizar os membros do grupo, que passam a comportar-se como uma seita, em uma possível alusão à “Família Manson”, um marco na história da cultura americana.

Em paralelo a estes enredos centrais, nos deparamos com a história de Nicky Capaldi, rock star britânico viciado em drogas que foge para o deserto a fim de escapar das pressões de sua carreira (e encontra-se com o casal Jaz e Lisa durante o desaparecimento de seu filho), com Laila (fã de Capaldi), uma iraquiana cujo pai é assassinado na guerra em seu país natal, forçando a menina a mudar-se para a Califórnia para viver com seus parentes (será ela a primeira a avistar o retorno de Raj em meio a um dos treinamentos de simulação de guerra).

Alguns outros pequenos acontecimentos dialogam com a obra central, como, por exemplo, um padre que em 1775 é testemunha de algum tipo de aparição não explicada; um linguista que estuda o dialeto de índios americanos é traído por sua esposa em 1920 e é encontrado pelos militares duas décadas depois vivendo em uma caverna; em 1947 um engenheiro de aviões prepara uma estação para a chegada de OVNIs, certo de que estes virão à Terra.

Deuses sem homens, portanto, é uma obra multifacetada e não linear, que une diversas peças aparentemente soltas para formar uma paisagem sólida e de uma magnitude muito particular.

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Hari Kunzru nasceu em Londres em 1969 e é um escritor que já conquistou certo nível de popularidade e credibilidade no mundo literário. Ganhador de vários prêmios, trabalhou para grandes veículos de mídia e, coerentemente, seus romances (dos quais Deuses sem homens é o quarto) tratam de uma variedade de temas, uma vez que Kunzru, em seus trabalhos jornalísticos e devido à sua descendência indiana, é exposto a múltiplos e variados pontos de vista em relação a questões fundamentais de nosso tempo. Seus livros já foram traduzidos para mais de 20 línguas. Além dos quatro romances, Kunzru publicou também um livro de contos. Nesta quinta obra de sua autoria, através de vários personagens através do tempo, Hari Kunzru trata de questões importantes dos mundos político, social, humano e cultural com muita habilidade.

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Deuses sem homens é uma obra de qualidade literária muito acima da média(O New York Times afirma até que Kunzru é o criador de um novo tipo de literatura). Desde sua estrutura ousada, que viaja pelo tempo sem confundir o leitor – mesmo criando expectativas sobre o futuro do enredo – até a maneira com que os temas são expostos, o texto tem o poder de transcender o que suas palavras dizem. É um livro que não aceita preconceitos. Mesmo ao tratar de OVNIs, guerras, crises conjugais, crises financeiras e diferenças culturais e religiosas, a obra não se limita a esses assuntos. Estas “paisagens literárias” usadas na obra terminam por somar-se em favor de algo maior, que supera cada enredo individual. Deuses sem homens é literatura que abrange os dois lados da moeda: é, ao mesmo tempo, storytelling de qualidade, e reflexão sobre a complexidade de diferentes existências.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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