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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Morte: escolha a sua.

A forma de viver quase sempre determina a forma de morrer.


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A eterna disputa entre sua natureza e o mundo real torna o ser humano um refém de si mesmo. Enquanto é preciso ser autêntico para viver em paz, é impossível o autoconhecimento sem se isolar periodicamente. O que fazer?

Reinaldo Arenas, em “A torre de vidro”, nos apresenta um panorama que poderíamos chamar de “premonitório” ao mostrar o sofrimento de um escritor que, devido a seus compromissos sociais de divulgação de sua obra, não tem mais tempo de escrever. O protagonista, refugiado de Cuba em Miami, é constantemente atormentado pelos personagens de uma obra que ainda não escreveu – e tudo indica que não conseguirá ao menos começar. Por um lado, o escritor sabe que se deixar de atender às aparições públicas, sua carreira pode vir a ser considerada decadente. Por outro, cada vez tem menos tempo de se interiorizar e criar algo. Alguma coisa em sua vida terá de morrer.

Escrito em 1986, o conto de Arenas poderia, mais do que nunca, ser um reflexo de nosso tempo. A preocupação em “existir”, em estar em evidência e sermos vistos é tanta, que cada vez temos menos espaço em nossas vidas para as coisas que de fato são importantes e nos fazem sentir que somos seres humanos únicos e com identidade própria.

À medida que o conto vai se desenvolvendo, os personagens começam a aparecer em meio a uma festa, mesclando-se aos convidados, forçando o escritor e recebê-los em sua vida. É o instinto humano passando por cima das decisões, do que o status quo exige de nós, pois mais cedo ou mais tarde a natureza sempre vence: ninguém consegue deixar de ser o que é ou abafar e esconder seus mais íntimos anjos e demônios por muito tempo. A morte é certa. Mas neste caso, antes da morte física, vem a morte do que é irreal, do que é falso, forçado. E essa morte escolhe dois caminhos: ou ela mata seu hospedeiro por ter tentado esconder (de si próprio) seus instintos, ou mata a própria capacidade do indivíduo de levar adiante uma escolha que impeça seus instintos de agir. No caminho que todos nós enfrentamos em direção à morte, estamos o tempo todo fazendo escolhas sobre nossas vidas, muitas vezes tão absortos que não percebemos que fazer escolhas na vida determina qual é a morte que teremos. A forma de viver quase sempre determina a forma de morrer.

Morte: escolha a sua.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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