yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Não somos imortais. Mas seríamos inúteis?

A ironia é que, mesmo sendo imortal, o sujeito sente que tampouco realizou algo de substancial na vida, e que seu tempo foi perdido e usado de forma irracional e irresponsável.


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Em “The Immortals”, Martin Amis lembra cada um de nós, que se por acaso nos sentimos inúteis, sem direção e sem propósito, não estamos sozinhos. Aliás, estamos todos juntos em um sentimento que é inerente ao ser humano. E essa noção é levada ao extremo quando o personagem sem nome – apenas o “Imortal” – nos conta sua vida desde que o mundo não era mundo até o futuro em que o mundo não será mundo. Tudo isso em muito poucas páginas – uma maneira simbólica de mostrar, assim como com suas palavras, que nada do que façamos de fato será algo verdadeiramente palpável e significativo.

Triste, deprimente? Talvez. Mas muito verdadeiro. À medida que a vida passa, é comum que a sensação de inutilidade e de tempo perdido, de escolhas erradas, de momentos jogados fora, cresça. E Amis atravessa bilhões de anos em poucos parágrafos, sem muito o que dizer – e com isso dizendo muito –, usando um comentário aqui, outro ali, sobre acontecimentos da vida de um imortal que em princípio teria muito o que dizer, mas ironicamente não diz nada.

Em um primeiro momento a ironia e a desesperança nos invadem e nos nocauteiam. Logo em seguida, porém, o ponto mais importante vem à tona. Sem ser mencionado, invisível, sem uma única palavra usada para discutir o assunto. O conto usa o “não-discurso” para discursar. Ou seja, Amis consegue escrever sobre algo ao não escrever sobre esse algo. Em determinado momento, quando o Imortal já viveu desde o primeiro minuto de existência de tudo até o último momento da vida (e ainda assim continua vivo), chega-se à conclusão de que o ser humano está fadado a (1.) Continuar sentindo-se um inútil até o fim (ou suicidar-se), ou (2.) Encontrar um motivo de viver que seja próprio de cada um, mesmo que isso não tenha sentido para os demais.

Com isso, novamente sem pronunciar uma única palavra, o conto tem o poder de questionar todas as invenções que os seres humanos já criaram (seria Deus uma delas?), e mostra que todas elas são nada mais que um impulso instintivo de apaziguar o sentimento de inutilidade e falta de sentido que a vida tem.

Não somos imortais. Mas seríamos inúteis?


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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