yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Um pequeno grande livro sobre o Dalai Lama

Uma obra que tem tudo para agradar desde os mais exigentes até os mais curiosos.


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The Dalai Lama on What Matters Most é uma obra que se divide em duas seções. A primeira constitui-se da introdução escrita pelo autor, Noriyuki Ueda, explicando suas motivações por trás da entrevista com o Dalai Lama, e um pouco de seu background no Japão e na busca por questões relacionadas ao Budismo. Ainda como parte dessa primeira seção, temos, após a entrevista com o Dalai Lama, uma espécie de posfácio através do qual Noriyuki Ueda reflete sobre as conversas registradas no livro e, assim, compartilha de sua experiência com o Dalai Lama sob seu ponto de vista. A segunda seção é composta pela entrevista (ou talvez bate-papo) com o Dalai Lama sobre diversas questões relacionadas aos valores de vida do ser humano. Vários tópicos que variam desde a essência da humanidade até a relação do Budismo com a modernidade e a crescente busca pelo consumo e por valores pelos quais a sociedade se divide em “vencedores” e “perdedores”.

O Dalai Lama se mostra aberto a conversar sobre todos os assuntos trazidos por Ueda e, mesmo reconhecendo que o dinheiro é uma necessidade no mundo de hoje, uma vez que alguém está sofrendo não há dinheiro que possa aliviar essa dor, já que ela é interna. Nas conversas, em diversos momentos a natureza das pessoas é comparada aos hábitos instintivos dos animais, em uma busca por separar o que é aprendido através dos valores sociais e o que de fato temos como valores inatos (assim como os animais). O Dalai Lama explica com poucas palavras (mas muitos eficientes) quando diz que o que mais consola um animal em sofrimento é outro animal que lhe faça companhia, que lhe lamba o rosto.

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Um dos pontos mais importantes da conversa é como aproximar o que hoje a sociedade separou: os ricos e os pobres. O Dalai Lama se mostra corajoso ao revelar-se, de alguma forma, levemente “esquerdista” (mas longe de ser comunista) no sentido de que há de haver uma maneira de estreitar os laços e as relações entre as pessoas. Para ele, porém, isso pode ser obtido – diferentemente de ações políticas radicais – através de um mundo em que os sentimentos e a bondade sejam os valores dominantes. Ele mesmo afirma que a proposta soa utópica, principalmente na modernidade, mas que o mundo está em constante mutação e a consciência da importância desses valores tem o poder de modificar o mundo, principalmente ao sobreviver às diversas épocas pelas quais passamos.

Um dos pontos bastante interessantes, principalmente para nós ocidentais, está no fato de que ambos os interlocutores concordam que grande parte dos monges budistas está longe de saber o que de fato o budismo prega. Estes se focam em retrair-se e seguir as “regras” e preces do budismo sem aprofundar-se no que de fato estas significam e propõem para o mundo e o ser humano. Revela-se uma grande surpresa o nível de consciência do autor e do Dalai Lama sobre o fato de que, assim como no ocidente, muitos monges se preocupam apenas com seu status e com dinheiro, assim como acontece no ocidente. O Dalai Lama não é agressivo, porém tampouco deixa de ser extremamente lúcido.

A obra de Ueda é “curta” em páginas, porém longa e profunda em suas reflexões, merecendo ser lida lentamente e transformada em um livro de cabeceira para lermos diversas vezes, sem preocupação com uma sequência específica.

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A estrutura da obra de Ueda é de fácil compreensão e leitura. Sua introdução é breve, a entrevista com o Dalai Lama é dividida em capítulos, e o posfácio elucida o que foi conversado entre os dois interlocutores. Diferentemente dos livros A arte da felicidade e A arte de lidar com a raiva, que se revelam extremamente profundos e em busca do âmago das questões propostas, The Dalai Lama on What Matters Most é uma pequena amostra do que o Dalai Lama propõe como filosofia de vida, porém sem ser maçante para o leitor comum.

Longe de ser superficial, a obra de Ueda tem o poder da comunicação eficiente para aqueles que buscam por conhecimentos além do consumismo e acerca do interior humano. Isso tudo sem exigir demasiadamente do leitor, mas dando-lhe a oportunidade de seguir o caminho proposto pelo livro ao escolher ler obras mais “densas” sobre o assunto. Esta obra é um “pequeno grande livro” que tem tudo para agradar desde os mais exigentes até os mais curiosos.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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