yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

A bipolaridade te faz mais criativo?

O mito do artista torturado vs. a dura realidade


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São inúmeras as questões de nossa época em relação ao que pode ser considerado doença mental, transtorno do humor, personalidade desequilibrada e... sim: genialidade e criatividade. Nas últimas décadas pulam pelos cantos os relatos de pessoas diagnosticadas com algum quadro psiquiátrico e, consequentemente, colocadas em tratamento com remédios psicotrópicos. Mas, apesar de toda essa febre de quadros e doenças atuais, ainda assim existe uma grande resistência na sociedade, tanto em relação às pessoas que carregam o estigma quanto ao tratamento com medicamentos (afinal, sou louco mesmo?).

Em seu livro Parafusos: mania, depressão, Michelangelo e eu, Ellen Forney aborda o assunto em primeira mão, afinal o enredo é autobiográfico e conta suas experiências desde cedo em sua vida, passando por um diagnóstico de bipolaridade, sua resistência em tomar remédios (vou virar um robô sem criatividade), sua aceitação dos episódios depressivos e maníacos, a realização do sofrimento, e finalmente a aceitação dos remédios.

Ellen é desenhista e cartunista e através de seu livro mostra ao leitor seu grande dilema: será que os remédios vão deixá-la “vazia”, sem criatividade, menos genial? Vários outros livros sobre o assunto são mencionados, principalmente os consagrados Uma mente inquieta e Tocados pelo fogo, de Kay Redfield Jamison, psiquiatra bipolar que nos dois livros relata suas experiências e analisa a mente criativa de grandes nomes da arte ligadas ao histórico de doenças mentais, internamentos e suicídios.

securedownload2.jpg Mas afinal, a bipolaridade te faz mais criativo? A resposta de Ellen oscila e cabe ao leitor analisar cada uma das fases do livro (e do humor da escritora) e tirar suas conclusões. Mas a experiência de ler (e ver) Parafusos ensina que a questão é muito mais complexa do que parece: não há algo simples como “sim” ou “não”. O que a bipolaridade parece fazer é maximizar o que a pessoa já possui. Se ela é criativa, ficará ainda mais criativa (e também mais desequilibrada). Se não é, nenhuma doença a transformará em um Van Gogh.

O medo de Ellen é nunca mais conseguir acessar sua criatividade (por mais que ela exista) uma vez que esteja sendo tratada por medicamentos que a equilibrem (ou tentem equilibrar). O modelo de artista torturado é atraente. Mas o fato é que a tortura é muito mais bonita para quem não a sente. No final das contas, o que mais vale ser na vida?

1. Criativo e torturado?

2. Calmo e (um pouco mais) feliz?

3. Criativo e equilibrado?

E algum desses é, de fato, possível?


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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