yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Pessoas com problemas (2): Annie Proulx

O problema de você ser quem você é, é que se tentar fugir disso, o problema aumenta.


ww.jpg

Assim como eu, você já deve ter ouvido ou pensado coisas como “parece que essa pessoa tem uma maldição, toda hora acontece uma desgraça na vida dela”. E é estranho, porque podemos dizer que a maioria das pessoas parece viver em ciclos que se repetem e a roda uma hora está em cima, outra hora embaixo. E às vezes parece que apenas embaixo. Nenhum ser humano passa impune nessa vida. Ninguém sempre estará numa fase boa e feliz, sem que em algum momento algo ruim – ou até mesmo uma tragédia – aconteça. Os supersticiosos ou religiosos diriam que há um motivo por trás disso, mas minha intenção não é entrar nesse campo, pois ele é ainda mais vasto e obscuro do que o que me proponho a refletir aqui.

Mas agora, por um momento, vamos pensar em alguma pessoa específica (escolha alguém, pode ser você mesmo). O mais natural e previsível que pode acontecer na vida dessa pessoa é que certos padrões se repitam. Você não conhece gente que “tem a mania” de escolher parceiros(as) cafajestes? Que deixam um vício para se meter em outro? Que prometem ser mais compreensivas apenas para criticar ou julgar a mesma coisa (ou algo parecido) da mesma forma? Que quebram a cara com situações semelhantes de novo e de novo – ou até mesmo se dão bem repetidamente?

Talvez o maior desafio do ser humano (ou um deles) seja “mudar”. Tanto que as pessoas dizem: “ninguém muda”. Dizem por observação e por experiência própria. Quando foi que você viu alguém mudar DE FATO? Geralmente quando algo muito grave acontece. Mas mesmo assim, as pessoas que conseguem, mudam SEUS ATOS, quase nunca seus sentimentos. Em outras palavras: a gente se sente igual ou muito parecido em relação a algo que já aconteceu e na melhor das hipóteses consegue reagir de outra forma. Eu disse na melhor das hipóteses. A tendência é que a gente reaja da mesma forma novamente.

Então a questão é: o que é melhor, aceitar quem somos e viver isso plenamente ou tentar mudar e viver batendo a cabeça na parede por não conseguir fazê-lo (pelo menos não como pretendíamos)? Mas daí, se você é uma pessoa invejosa, ciumenta e rancorosa, vai viver isso plenamente? Vai aceitar isso? Ou vai tentar mudar, mesmo que a inveja, o ciúme e o rancor fiquem te comendo por dentro enquanto você faz cara de paisagem? Claro que não são apenas os defeitos que parecem impossíveis de serem mudados. Felizmente, as qualidades das pessoas geralmente também não desaparecem. Mas todos nós temos os dois lados.

A cada respiração que a vida nos proporciona, me parece que a aceitação de si mesmo é um caminho menos desastroso do que a fuga do nosso próprio eu. O ideal é que nosso lado “são” possa observar o “lado negro”, e só com o olhar, como um pai amigo, possa frear nossos demônios, mantendo-os o mais calmos e inofensivos possível. A fuga tem um problema irresolvível: ao não conseguirmos desaparecer de nós mesmos, estamos sempre ao nosso próprio alcance, subjugados ao próprio castigo que inevitavelmente nos daremos. O único julgamento ao que não podemos sobreviver é o mais comum de todos: aquele que criamos para ser usado em nós mesmos.

---------------------------------------

Este é um texto criado livremente após ler "The Wamsutter Wolf", de Annie Proulx, publicado na edição 171 do The Paris Review Book, em 2004.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
Saiba como escrever na obvious.
version 7/s/literatura// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Julian Barg