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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Pessoas com problemas (1): Joanna Scott

Mas afinal, qual é o problema?


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Existem os problemas reais e os imaginários. E os REALMENTE imaginários. Mas o real problema não é nenhum destes, e sim conseguir (nunca é possível) diferenciar qual é qual. Mas neste último não conseguimos pensar, pois estamos entretidos com os primeiros, que são os quais acreditamos serem os verdadeiros.

Você se pergunta em que está se focando quando se sente engolido por uma questão, algum tipo de problema que o perturba? Geralmente nos focamos no que acreditamos ser o problema, por exemplo: "não consigo fazer isso ou aquilo, aconteceu uma coisa que não sei como resolver". A mente se prende a essa(s) ideia(s) e o círculo vicioso se forma em torno dela. Mas e se o pensamento de tentar resolver seu problema for um problema ainda maior e mais irresolvível que o "primeiro problema"?. O que pode acontecer é que, mesmo depois da questão inicial ter tido sua "vida útil" acabada, nossa cabeça continua fixada em tentar resolver um problema que não só não é mais real, mas também, se fosse, não teria sido resolvido por nós (pelo menos não tão facilmente).

E aí surge o sofrimento secundário (e talvez maior) que é não conseguir se livrar do pensamento de que o problema não foi resolvido, ou pelo menos não inteiramente. E se pensarmos cronológicamente, um after taste, um rabicho de problema sempre sobra em quase todos eles (todos os problemas). Com o passar do tempo, a somatória de pequenas poluições que restaram de cada processo se transforma no que chamamos de "parede de proteção", também conhecido pelo chulo nome de "trauma".

Com o trauma, uma série de oportunidades serão negadas antes mesmo de sabermos se elas valem a pena ou não, basta cada uma delas apenas se assemelharem um mínimo a outras situações pelas quais já passamos e que não terminaram de forma satisfatória. Ok, mas isso RESOLVE um problema futuro que ia surgir ou CRIA um novo problema, que é não viver algo que poderia ser novo e, apesar de ter toda aquela cara de "eu já sei do que isso se trata", na verdade não era nada disso?

A vida começa com pequenos problemas reais (externos), se mescla com problemas irreais (internos) e tende a criar um movimento de acumulação de padrões de criação de problemas-pelos-quais-não-quero-passar-novamente. Nós mesmos somos essa máquina criativa de autossabotagem. E esse será o problema pelo qual todos nós mais passaremos pelo resto da vida.

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Este é um texto criado livremente após ler "A Borderline Case", de Joanna Scott, publicado na edição 123 na The Paris Review Book, em 1992


Julian Barg

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