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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Pessoas com problemas (3): Ben Okri

Você acredita em azar?


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A palavra azar é usada de forma leviana. Todos os dias, toda hora, por qualquer coisa. Algo aconteceu com você que te prejudicou ou criou um contratempo sem a menor causa aparente? Com certeza sim. Todos já passamos por isso. Nosso pensamento é dizer a nós mesmos: “que azar”. As pessoas ao nosso redor, quando passam por algo ruim ou nos veem nessa situação, dizem: “que azar”. Ok, é uma força de expressão, é uma maneira de dizer que nós não somos diretamente responsáveis pela cadeia de ações que geraram determinado acontecimento que resultou em algo ruim.

Mas pensemos da seguinte forma: antes de considerar a existência do azar, duas coisas vêm antes: a sorte e a má sorte. Você acha que essas duas condições são mais profundas ou mais rasas que o azar? Se você buscar a definição de azar em dicionários, frequentemente vai achar “má sorte” como uma expressão correspondente. Mas também vai achar “mau agouro”, que parece ter complicações bem mais sérias, não? E também vai achar “acaso”, o que parece aliviar o conceito (ao contrário do “mau agouro”, que pesa na percepção). E muitas vezes vai achar “infortúnio”, que por sua vez é descrito como “desgraça”. A coisa fica complicada, os conceitos vão se alargando e abrangendo mais e mais, até que chega a hora em que você é quem tem de decidir o que é sorte, má sorte e azar.

Nenhuma dessas palavras ou expressões têm de fato um peso tão grande se formos considerar um ou outro episódio que consideremos negativo para nós ou para os outros. Afinal, quem é que nunca passou por isso, quem nunca teve “azar” em alguma situação? Acredito que a maioria de nós está de acordo – ou próxima de um acordo – em relação a isso.

Mas é outro conceito de azar que me vem à cabeça e que é o mais destruidor de todos. Lembro quando era criança de ouvir um amigo falar de outro: “não ando mais com fulano porque ele dá azar”. Foi a desgraça do “fulano”. Aos 13 anos de idade, esse garoto foi deixado de lado permanentemente por quase todos a partir do momento em que essa “maldição” lhe foi imposta. A partir de então ninguém queria ser seu amigo ou se aproximar dele, com medo de contrair o vírus do azar e ser amaldiçoado junto pelo resto da vida. Sim, estou falando de crianças, mas os adultos não são iguais?

O que acontece na mente das pessoas no momento em que a ideia de azar PERMANENTE surge como possibilidade? Assim como aqueles que não acreditam em nada (até que precisem de alguma ajuda que não pode vir de ninguém e de nenhum lugar) mudam suas crenças, mesmo os mais céticos muitas vezes terminam por evitar qualquer coisa que possa ameaçá-los. É o tal do “não acredito, mas vai que...”.

O conceito do azar permanente, da pessoa que carrega um azar consigo como se fosse uma alma penada, é muito parecido com quaisquer outras crenças: não é necessária uma prova concreta para que as pessoas acreditem ou não (apesar de que inúmeros crentes e descrentes frequentemente acreditam ter provas universais para o que acreditam). O fato é que talvez a maior causa da crença no azar é uma outra realidade em nossas vidas, essa sim uma fonte de muitos problemas e discórdias: o medo do desconhecido, do mistério de quase todas as coisas. Em outras palavras: se não temos explicação para isso ou aquilo, criamos essa explicação; se não achamos culpado para algo que aconteceu, acusamos alguém. Precisamos de alívio do nosso medo. E um dos nossos medos é de que o azar de fato exista.

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Este é um texto criado livremente após ler "The Dream-Vendor's August", de Ben Okri, publicado na edição 105 do The Paris Review Book, em 1987.


Julian Barg

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