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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Pessoas com problemas (4): Wells Tower

Viver sem propósito é existir. Existir é sobreviver. Mas sobreviver, às vezes, é o que nos resta.


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São poucas as pessoas que nascem sabendo. Poucas as pessoas que, ao longo da vida, você vai ouvir dizer: “eu sempre soube o que eu era, sempre soube o que queria ser”. A maioria de nós caminha pela vida por um bom tempo em busca de descobertas, alguns se testando mais que outros, tentando viver o máximo de experiências possível, talvez em um ímpeto inconsciente de tentar responder a questões que, de alguma forma, tentam nos levar a descobrir quem de fato somos, qual nosso propósito na vida (se é que há algum), em que situação, lugar ou na companhia de quem nos sentimos verdadeiramente em casa, em paz.

Há várias maneiras de fugir desse impasse, muitas vezes de forma inconsciente, instintiva ou até mesmo genuína. Cada um encontra a sua. Ou... Não encontra. Eu poderia apostar que a grande maioria dos seres humanos está vivendo e pensando em coisas “aqui perto”: como vai pagar as contas no fim do mês, se vai conseguir um aumento ou uma promoção, se a mulher ou marido que escolheu realmente é a melhor escolha (ou se poderia estar com alguém mais adequado), se os filhos estão bem, o que farão da vida, se a educação que lhes está dando é a mais apropriada. Todas elas questões extremamente válidas, importantes e, em última instância, essenciais. Mas todas “aqui”, imediatas, mesmo que com consequências que podem ter um reflexo profundo para o resto da vida.

Parece que o mundo é uma grande distração. Com tantas coisas a resolver, escolhas a fazer, rumos a tomar, é irônico pensar que tantas pessoas passam pela vida e chegam ao seu fim sem de fato terem descoberto qual seu lugar. E o tempo passa, as pessoas olham para trás e dias e anos se empilham com incontáveis momentos significativos para o dia a dia, somados a um tempo imensurável em que não há nada realmente importante. Nem todos os momentos são determinantes em nossas vidas e é bom que seja assim, caso contrário não teríamos condições de aguentar o peso da vida. Descansar é preciso. Mas descansar sabendo que, ao retomarmos nossa vida, sabemos para onde queremos levá-la, é muito mais relaxante, revigorante e vital.

Tenho ouvido muito pessoas dizerem que a vida piora com o tempo, que as obrigações tomam conta e o tempo se torna escasso para a reflexão, o prazer de descansar, refletir e viver o que sentimos que devemos viver. Na verdade, talvez seja impossível descobrir qualquer coisa mais profunda em nós, seja ela um mínimo detalhe ou uma grande epifania, se não tivermos bons momentos de “nada” com certa frequência. A falsa sensação de sermos úteis quando temos o tempo tomado por atividades específicas pode nos dar grande status, com o mundo a nos considerar “vencedores”, “talentosos”, “exemplares”. Mas dificilmente essa sensação atribuída a nós será sentida por nós mesmos se não tivermos tempo de viver nosso interior. É como passar a vida vendo capas de revistas, livros, discos, sem nunca termos lido seu conteúdo, ouvido suas vozes. Tudo parece vivo, mas nada é consistente.

Mas quem é que se permite abrir brechas no dia a dia, recusar oportunidades, dizer não a determinadas propostas apenas para – aparentemente – não fazer nada? Quase ninguém. E o tempo passa, o dia a dia vai ficando ralo, as propostas vão diminuindo e as companhias vão desaparecendo. Como qualquer investimento na vida, os frutos vêm da insistência positiva em uma atividade escolhida. Quantos de nós escolhemos a própria vida para investir? Falo da vida indefinível, aquela que não sabemos para que serve, como começa e como acaba, e, principalmente, o que vamos fazer com ela nesse meio tempo.

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Este é um texto criado livremente após ler "The Brown Coast", de Wells Tower, publicado na edição 161 do The Paris Review Book, em 2002.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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