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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Pessoas com problemas (5) - Julie Orringer

Pessoas feias. Ou que se acham feias. Ou burras.


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Em um mundo tão interligado, tão cheio de variáveis, de diferentes propostas sobre o que é aceito ou não, o que é tabu e o que pode ser livremente discutido, onde as pessoas – em grande parte do mundo – têm liberdade para serem ou se expressarem mais e mais a cada dia, o que vivemos é irônico. São os tempos do proibido. Ao mesmo tempo em que “tudo pode”, também vivemos o “cale-se ou serás apedrejado”. E em um mundo tão diversificado, a questão da autoestima continua – e talvez seja um problema ainda maior, pois afinal temos mais variedade, mas temos mais com o que nos comparar.

O olhar para fora de si é um mundo duplo: através dele existimos, sabemos quem somos, nos identificamos como sendo uma coisa ou outra, temos como escolher o que queremos ser; por outro lado, ao menor vacilo, começam as comparações excessivas e, uma vez que o objeto com o qual nos comparamos é escolhido de uma forma que nos machuque (e esse padrão de comparação se intensifique), seremos eternamente infelizes. Perderemos nosso tempo sofrendo por tudo o que não somos e esqueceremos tudo o que somos. Essa engenhoca mental entra em um túnel negro de não valorizar o que é conhecido e valorizar tudo o que não está ao nosso alcance.

Antes de nos preocuparmos se somos ricos, se temos “sucesso”, se “chegamos lá”, o buraco pode ser bem mais fundo e começar muito mais cedo. A primeira base de comparação que temos entre nós é nosso aspecto. O colégio, por exemplo, pode destruir ou solidificar a visão que crianças têm de si próprias, e o estrago que isso pode causar ao longo da vida será, em alguns casos, permanente. A liberdade que as crianças têm de falar o que pensam, criticar e zombar umas das outras é a natureza humana mais obscura em seu momento mais virgem.

É claro que muitas pessoas que foram traumatizadas quando pequenas por serem feias, desengonçadas e estranhas, terminam por reagir e se transformar em adultos de grande sucesso e muitas vezes se tornam o oposto do que eram consideradas. O inverso também é real: os que foram bajulados desde sempre se acostumam com a vida “fácil”, cheia de elogios, e um dia se deparam com a realidade de que não fizeram nada de palpável com suas vidas pois não aprenderam a batalhar – afinal, o jogo já estava ganho.

Mas e as que ficaram estigmatizadas e “continuaram feias”, nem que seja em suas próprias mentes? As pessoas cuja autoimagem permanece até hoje como sendo digna de repúdio e de descaso para elas mesmas? Como convencer um adulto de que tudo o que ele ou ela acreditaram sobre si próprios até agora pode não ser totalmente verdade? Uma semente errada muito bem regada por ser o crescimento de uma árvore que tapa todo o céu, que impede de ver o que nos cerca e que nos impede de sair de um lugar que só nós acreditamos que existe.

A natureza de nossas mentes possui uma gama de variações que seria impossível medir. E nessas variações, a tendência ao aprisionamento de um estado mental, a uma crença sobre si mesmo, a uma certeza estagnada, está presente no ser humano em um nível ou outro. Se eu me acho feio, incapaz, eternamente despreparado, sem condições para evoluir, sem talento para amar e ser amado, como sairei dessa cadeia? O lado oposto, em demasia, é tão aprisionante quanto: não há como conviver com o mundo sendo um ser perfeito.

Apesar de parecer que apenas olha para si mesma, uma pessoa que se desconsidera em aspectos importantes está, na verdade, olhando muito para fora de si e se focando apenas nas qualidades (reais ou imaginárias) dos outros (e sempre ignorando seus defeitos) e comparando apenas seu pior aspecto com o melhor aspecto alheio. É uma comparação injusta e um autoflagelo sem saída.

Tomara que todos nós tenhamos lucidez para diminuir esse comportamento mental em nós mesmos a maior parte do tempo, pois afinal, ele existe em todos.

Um dia de cada vez.

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Este é um texto criado livremente após ler "When She Is Old and I Am Famous", de Julie Orringer, publicado na edição 149 do The Paris Review Book, em 1998.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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