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Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

Los que aman odian: Bioy Casares, um escritor quase esquecido. Por quê?

Mesmo após grande parte de sua obra ter sido lançada recentemente no Brasil, a pergunta é sempre "Bioy o quê?"


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Impossível iniciar este texto sem mencionar o fato de que é inaceitável o nome de Adolfo Bioy Casares ser tão desconhecido no Brasil, visto que sua qualidade narrativa, imaginação, humor irônico e afiado e obra monumental estão a nosso alcance há tantos anos. Não é por uma simples coincidência do destino que foi, além de grande autor de romances e contos, amigo pessoal e coautor de várias obras com Jorge Luis Borges. La invención de Morel, obra de Casares de 1940, dedicada a Borges, foi considerada por este “nada mais do que perfeita”. Mas o fato é que Borges possui uma sombra que se inclina por escritores até hoje, mesmo de nossa contemporaneidade, e Bioy Casares teve (e em memória tem) de conviver com esse fato também.

Apesar de a autoria de Los que aman, odian ser atribuída a Silvina Ocampo (esposa de Casares) e a Bioy, em conjunto, percebe-se nitidamente a narrativa policial cheia de reviravoltas quase nonsense e o senso de humor particulares de Casares, o que nos leva a crer, que, muito provavelmente a parceria entre os dois se dava de forma que Casares, se não em todos os momentos, em muitos era quem teclava.

Los que aman, odian, em comparação a outras obras de Casares, parece ter sido escrita como um ato de diversão, uma brincadeira em que o casal resolve criar uma situação ao estilo de Agatha Christie, colocando um grupo de pessoas em uma praia distante e deserta para tentar descobrir, entre eles, quem é o criminoso. Difícil acreditar que não haja alguma travessura dos autores com O caso dos dez negrinhos, de Christie. Mas a obra argentina não pretende ter contornos importados e nem mesmo imitar ninguém: Bioy Casares e Silvina Ocampo parecem se orgulhar de serem eles mesmos e podem ser reconhecidos de longe neste romance policial (ele mais do que ela).

Nosso narrador, um médico quase monárquico, quase imperial em seus dotes, vacilações e excesso de considerações e hipóteses em demasia, nos leva por uma viagem leve e divertida. O texto, apesar de policial, é puro entretenimento, mas muito antes de a palavra entretenimento ter se transformado em sinônimo de baixa qualidade. Aqui, pelo contrário. O texto é o exemplar perfeito de uma época em que escrever para entreter era uma das mais nobres intenções de um autor e ser entretido uma das mais esperadas emoções que um leitor buscava em um texto. É claro que me refiro desta forma levando em consideração a natureza da obra. Casares e Ocampo não tentam ser filósofos, nem excessivamente profundos – ou nem ao menos profundos. Sem essa tentativa, e com toda a qualidade que o texto carrega, esta termina por ser uma obra das quais sentimos saudades já antes de chegarmos às últimas páginas.


Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico..
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