yo hablo

Porque é impossível fingir que literatura não existe

Julian Barg

Licenciado em Letras e mestre em Teoria Literária; Professor e moderador literário; Mas antes de tudo, leitor e músico.

"Samsa In Love", o conto de Kafka em Murakami

Grandes obras não morrem, sobrevivem das mais variadas formas, mesmo que o mundo tente assassiná-las.


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Às vezes – muitas vezes – me pergunto se a arte de uma cultura completamente distinta à nossa de fato tem o poder de nos aproximar ou afastar ainda mais daquela e de tudo que a acompanha – seu povo, seus costumes, seus valores e daí em diante.

“Samsa In Love” (traduzido do japonês), escrito pelo renomado Haruki Murakami, me fez refletir e repensar essa questão sem resposta mais uma vez. Este é o segundo texto que leio do autor japonês (li também After Dark, e o visualmente bíblico 1Q84 está na minha biblioteca me esperando). Em ambos, a sensação que tenho é de que estou “desentendendo algo”, e esse algo seria basicamente “qual é o ponto ou intenção ou moral ou conclusão que este texto japonês pretende atingir?”. Ou seja, uma coisa é óbvia: independentemente de gostar ou não da escrita, sou um ignorante nesse aspecto, e acredito que o ser humano como um todo seja dotado de certa dose de ignorância perceptiva. Partindo disso, concluo que minha experiência até agora com Murakami se baseia em fatores mais sensoriais e menos racionais.

Lembro-me quando a Folha de S. Paulo, há alguns (muitos) anos publicou vários autores reescrevendo o primeiro parágrafo de A Metamorfose, e achei genial, porque além de serem múltiplos em intenção e narrativa, davam a oportunidade a cada um dos autores de apropriarem-se de um texto que já faz parte da humanidade, e, de certa forma, reconstruí-lo, ou destruí-lo. No caso de Murakami acontece o mesmo, e Gregor Samsa não se transforma em uma barata, mas tudo leva a entender que uma barata (ou algo) se transforma em Gregor Samsa, e instintivamente percebe que virou um ser humano. Quando a casa abandonada o assombra, Samsa atende à porta e uma mulher (ou uma mulher-quase-inseto?) o pega desprevenido e faz com que seus instintos humanos aflorem.

Em “Samsa In Love” o conflito também é constante, enquanto lá fora das paredes da casa de Gregor tanques vagam pelas ruas e bombas explodem a todo o momento. A grande brincadeira trágica do conto é a inversão de guerras, pois tanto n’A Metamorfose de Kafka como em “Samsa In Love”, várias guerras se debatem, e cabe ao leitor identificar qual é a guerra interna do ser e a guerra seca e pragmática do mundo.

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"Samsa In Love" (Haruki Murakami) Conto publicado no The New Yorker: http://www.newyorker.com/fiction/features/2013/10/28/131028fi_fiction_murakami?currentPage=1


Julian Barg

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